Vivian Gornick é uma exímia e reconhecida contadora de memórias, mas na sua escrita a memória não é apenas recuperação do passado – acaba por ser matéria para pensar sobre a experiência e para procurar, no acontecimento individual, um significado mais amplo. Em “A Mulher Singular e a Cidade” (D. Quixote, 2026), Gornick explora a relação entre o eu e a urbe, fazendo de Nova Iorque muito mais do que um cenário. A cidade é quase uma personagem, um espaço que a narradora percorre, observa e interroga, cofrontando-se com os outros e consigo própria.
Gornick explicou que chegou a pensar escrever um livro sobre si e a cidade, até encontrar em Leonard, o amigo que se tornaria o eixo da narrativa, a relação capaz de organizar essa experiência. A protagonista e Leonard estão unidos por uma experiência de vida que, embora não seja idêntica, os coloca de algum modo à margem das expectativas convencionais: ela como mulher divorciada e feminista; ele como homossexual. Ambos vivem sozinhos, partilhando uma história marcada pelas transformações sociais e políticas das últimas décadas. O pessimismo une-os, mas a amizade é também aquilo que os salva do isolamento. Os encontros semanais para falar da vida, daquilo que aconteceu e sobretudo daquilo que não aconteceu, transformam-se numa espécie de exercício de reconhecimento mútuo.
A amizade assume na narrativa uma importância particular. Numa cidade gigantesca, onde milhões de pessoas se cruzam sem se conhecerem, esta surge como uma forma de solidariedade. A relação com Leonard não elimina a solidão, mas dá-lhe uma linguagem. Os dois podem pensar juntos sobre aquilo que os inquieta, confrontar-se e, sobretudo, reconhecer-se. Através do outro, cada um acaba por conseguir olhar para si próprio.
É aqui que a cidade ganha uma dimensão particularmente interessante. Nova Iorque surge como um reflexo da solidão individual, uma cidade cheia de pessoas, encontros e movimento, onde, paradoxalmente, se pode estar profundamente só. Gornick observa os transeuntes, escuta conversas, regista encontros ocasionais. Procura nos outros, mesmo nos desconhecidos, sinais de uma experiência humana que possa reconhecer como sua. Alguns encontros são breves e anónimos; outros permanecem e tornam-se estruturantes. A cidade vive dessa coexistência entre o efémero e o duradouro, entre a multidão e a intimidade. Talvez por isso o livro pareça ser, também, uma reflexão sobre a possibilidade de viver bem entre os outros sem deixar de se estar só. Não se trata necessariamente de vencer a solidão, mas de aprender a habitá-la. Para Gornick, parece ser necessário encontrar alguma forma de estar consigo próprio antes de poder verdadeiramente estar com os outros. E, paradoxalmente, pode ser precisamente no meio da multidão que essa aprendizagem pode acontecer.
Nova Iorque aparece-nos como uma construção humana, que contém simultaneamente a grandeza e as limitações do humano. Nas suas ruas estão a criatividade, a violência, a desigualdade, o desejo, o fracasso, a solidão e uma extraordinária capacidade de expressão. Gornick caminha pelas ruas quase como uma antropóloga, atenta às pequenas manifestações de humanidade que a cidade lhe oferece, numa aparente tentativa de encontrar, no meio de uma multidão de desconhecidos, sinais de pertença e reconhecimento – eventualmente, até de humanismo para além do cimento. A narrativa acaba por incidir sobre a dificuldade de viver entre os outros sem nos perdermos de nós mesmos, e a necessidade de encontrar, na presença dos outros, uma confirmação da nossa própria existência.
Vivian Gornick nasceu em Nova Iorque, em 1935. Autora de diversos livros de ensaios, memórias e biografias, é uma das lendas vivas do jornalismo feminista norte-americano. “Vínculos Ferozes”, originalmente publicado em 1987 e editado em Portugal em 2023 – também pel D. Quixote -, é internacionalmente considerado uma obra-prima entre os livros de memórias – o New York Times considerou-o o melhor livro de memórias dos últimos 50 anos.











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