Debruçando-se sobre um mapa, a jovem aristocrata Marguerite de la Rocque de Roberval lê várias vezes a palavra isola. Estamos na França do século XVI, o mapa pretende representar terras por explorar no Novo Mundo, e aquela palavra designa cada ilha aí traçada, entre desenhos de ondas. Nessa altura, ela ainda ignora que uma delas a marcará para sempre, mas o leitor já tem fortes razões para suspeitá-lo, pois encontrou no prólogo deste livro uma voz feminina que declara que ainda sonha com pássaros, sozinha numa ilha de pedra de onde não consegue escapar, perscrutando no horizonte navios que ignoram os seus pedidos de socorro.
“Isola” (Asa, 2026) é também o nome deste romance histórico de Allegra Goodman, baseado numa história verídica que descobriu por acaso e que, compreensivelmente, lhe despertou a curiosidade e cativou a imaginação, por confrontar uma pessoa de carne e osso com um cenário absolutamente inesperado.
À parte o prólogo revelador, a narrativa segue uma cronologia linear, acompanhando a protagonista desde a infância até à idade adulta. A pequena Marguerite que nos é apresentada nunca conheceu a mãe, morta no parto, e perdeu o pai aos três anos, em combate pelo rei. A orfandade deixa-a só entre criados, num vasto domínio de “aldeias, vinhas e campos soalheiros”. Porém, aprende desde cedo que não dispõe de nenhum bem, nem sequer de si própria, pois tudo é administrado por um guardião que supostamente lhe arranjará um marido, o qual receberá as propriedades como dote. Apesar das suas dúvidas de criança, Marguerite não se revolta com tal destino – afinal, a ama inculca-lhe desde cedo que “aquilo que deseja não tem importância alguma”, e os livros ensinam que uma recompensa espera aqueles que são postos à prova, desde que sejam pacientes, cuidadosos e bons. Porém, o poderoso guardião revela-se um especulador que lhe desbarata a herança, forçando-a a abandonar o seu mundo campestre e a acompanhá-lo, primeiro para a azafamada cidade portuária de La Rochelle e depois na expedição que dirige para fundar uma colónia naquilo que era então a Nova França, e que mais tarde será o Canadá – uma expedição cheia de perigos, onde não falta a personagem positiva de um experiente marinheiro português chamado Jean Alfonse.
O amor que nasce entre Marguerite e o secretário do seu guardião é visto por este como uma afronta. Tratando-se de um homem de temperamento complexo e humor imprevisível, sedento de grandeza e de obediência, capaz de atormentar aquela que deveria proteger com jogos psicológicos, decide satisfazer-lhes o desejo de ficarem juntos… abandonando-os numa ilha desabitada, à mercê dos elementos e da vida selvagem.
Nesse território belo e agreste, onde o inverno é longo, frio e escuro, o jovem par – e a fiel ama de Marguerite, que a acompanha sempre – encontra uma liberdade paradoxal e consegue construir um lar, aproveitando os recursos disponíveis e o que lhes foi permitido transportar. Este é um lugar de transformação para Marguerite, que aprende a fazer o que antes seria inconcebível para uma dama da sua estirpe, e dessa forma sobrevive a sucessivas tragédias, demonstrando uma resiliência surpreendente.
A narrativa na primeira pessoa torna esta história de amadurecimento particularmente envolvente, mas todas as personagens são tão cuidadosamente construídas que poderiam servir de inspiração a outras histórias. Há aqui amor, aventura, ambição e dedicação – e, sobretudo, uma resistência admirável à adversidade.











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