Há amores que se desfazem como areia entre os dedos, mas há sabores que insistem em ficar, gravados algures entre a boca e a memória. É esta a premissa da obra “A Comissão Fúnebre da Receita Favorita do Ex-Namorado” (Casa das Letras, 2026), assinada pela japonesa Saki Kawashiro.
Neste romance, onde o luto amoroso ocupa o lugar central da mesa, somos convidados a sentar-nos junto de uma mesinha de um pequeno café em Tóquio, para escutar histórias de amores que terminaram, acompanhadas por garfadas de sabores que um dia significaram tudo. Que ingredientes curam um coração partido? Talvez os mesmos que o alimentaram em tempos: sabores conhecidos que, provados de novo, sabem agora a outra coisa, mais intensa e mais crua.
A história começa com uma pequena tragédia amorosa: o fim de uma relação de cinco anos com quem se julgava ser a alma gémea. É dela que nasce a chef Momoko, uma contratação atípica do café Amayadori. Ao ouvi-la partilhar o desfecho trágico do seu romance, Iori, o gerente do café, tem a ideia de criar a Comissão Fúnebre da Receita Favorita do Ex-Namorado, à qual se junta ainda Hozumi (um monge budista). Três vozes distintas, que se reunem em noites temáticas para ouvir os fracassos amorosos alheios, enquanto a chef cozinha o prato que a cada história pertence, na esperança dar um recomeço aos corações partidos.
É no momento em que Momoko recorda o quanto o ex-namorado adorava a sua cozinha que a ideia se acende de vez em Iori: confeccionar os pratos favoritos dos ex-namorados e servi-los a quem precisa de se reencontrar e colocar um ponto final na sua história. Ao longo do tempo e enquanto cozinha, Momoko descobre que a combinação entre a comida e a palavra tem o poder estranho de coser feridas, não só as dos que visitam a Comissão Fúnebre mas, também, as suas próprias. Assim nasce, semana após semana, um grupo de terapia pouco ortodoxo: um trio que abre as portas do café a corações partidos, consolados apenas por conversas longas e profundas, por uns copos bem servidos e a receita que um dia marcou uma relação.
Com uma narrativa leve e reconfortante, Saki Kawashiro explora o poder que a comida guarda em si: o conforto que oferece, mas também as memórias que transporta, intactas, através dos anos, como se cada prato fosse um pequeno arquivo do que se foi. Mais do que agradar a quem se acompanha, importa ser-se fiel a si próprio, nunca deixando de se traçar o próprio caminho, mesmo quando esse leva a abandonar a mesa de casa e a procurar novos sabores. Para quem gosta de viver ao máximo as histórias e precisa de uma receita para recomeçar, este livro serve várias sugestões gastronómicas – e sentimentais – para experimentar.











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