Por volta de 2012, depois de um longo percurso que envolveu uma infância e juventude focadas na espiritualidade individual, pureza moral e uma disciplina rígida que tendia a deixar os prazeres mundanos de fora – uma chatice chamada pietismo -, ao que o caminho existencial acrescentou ainda uma fase ateia e marxista que fez com que batesse com estrondo a porta à igreja luterana, Jon Fosse converteu-se ao catolicismo, em busca de uma dimensão espiritual que, para quem o tem acompanhado no reino da edição literária, se tem espelhado nos seus trabalhos, sobretudo em Septologia, a sua obra monumental em sete volumes publicada entre nós pela Cavalo de Ferro.
Vencedor do Nobel da Literatura em 2023, Jon Fosse esteve no FOLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos no último fim-de-semana e logo em dose dupla: primeiro com José Mário Silva, numa mesa de autores sob o tema do “Indizível”; (pode ser vista aqui ) e, no dia seguinte, numa “conversa de vida” com Ricardo Duarte, onde ficou bem patente que o indizível é, sem dúvida, o território primordial do escritor norueguês – pelo menos nesta vida das aparições públicas.

Ricardo Duarte bem tentou subir e descer a escadaria da obra de Jon Fosse, mas a verdade é que o norueguês se mostrou bem mais expansivo – e divertido – quando a conversa derivava para longe das páginas impressas – as suas -, fosse para falar do prazer de reler os clássicos – como Dante, Homero ou o Flaubertiano “Madame Bovary” -, da chatice do reconhecimento trazida pelo Nobel, que o afasta, por exemplo, do prazer e anonimato de entrar numa livraria – “Toda a gente que ganha o Nobel fica satisfeita. Quem disser o contrário está a mentir. Mas a atenção e os convites são demasiados. Transformas-te num tipo suspeito. Um objecto histérico e por vezes desagradável” -, dos tempos de rebeldia estudantil – “Não me sabia comportar, talvez por isso me tenha tornado escritor. Depois acalmei-me e tornei-me uma pessoa educada. Mas continuo a ser um rebelde” -, de quando teve como aluno de escrita criativa Karl Ove Knausgård – “Disse-lhe que não devia usar a escrita diarística na ficção e ele fez exactamente o oposto. E fez muito bem” – ou respondendo, sem opinião formada, ao Nobel atribuído a Anne Carson – “Algumas pessoas adoram-na, outras acham-na demasiado cerebral”.
Quanto ao acto da escrita, que definiu como “ser maior que a vida num certo sentido, um acto de transcendência”, disse ser uma dádiva que lhe foi “dada por alguém, talvez não por Deus mas por um anjo da guarda. Se soubesse de onde vem iria destruir tudo. (…) Não sei sobre o que escrevo, apenas que há uma certa urgência”. Mostrando-se um apaixonado pela forma, falou da – sua – arte como “uma necessidade de encurtar a distancia em relação aos outros e ao mundo”, ou de uma escrita que é como um longo e inacabado rolo de papiro: “Tudo o que escrevi está ligado, é tudo um texto muito longo. Alguns romances estão ligados entre si ou a peças. Uso o mesmo material”.

Definiu-se como “um pacifista”, considerou as vozes autorais autênticas como impossíveis de serem imitadas por uma máquina – “É talvez mais uma esperança do que uma possível realidade” – e, confrontado com o facto de Saramago ter decidido dar voz aos que não tinham depois de ter levado para casa o Nobel, saiu-se triunfalmente com uma apologia parental: “Tenho 6 filhos, é difícil sobreviver. Tenho de ter tempo para cuidar deles”. Antes de se despedir, voltou ainda ao momento em que se terá tornado escritor – “Foi inesperado, apenas aconteceu. Era bom e verdadeiro, mas porque escrevi? Não sei” -, antes de ir em busca da filosofia Hegeliana para lembrar que “se queres ouvir Deus tens de ouvir o silêncio”. E talvez seja precisamente aí, no conforto do silêncio, que a obra de Jon Fosse pode ser apreciada.
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Fotos cedidas gentilmente pelo FOLIO.











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