“Vocação para os Desastres” (D. Quixote, 2026), de José Carlos Barros, é uma colectânea de dezassete contos que, embora nos conduzam por universos, personagens e situações muito diferentes, parecem encontrar um território comum na perda, na fragilidade das relações e na dificuldade de conciliar aquilo que racionalmente compreendemos com aquilo que emocionalmente somos capazes de aceitar.
José Carlos Barros nasceu em Boticas, em 1963, e vive actualmente em Vila Nova de Cacela, no Algarve. Licenciado em Arquitectura Paisagista, desenvolveu a sua actividade profissional nas áreas do ordenamento do território e da conservação da natureza. É poeta e romancista, autor de doze livros de poesia e de três romances, vencedor do Prémio LeYa em 2021. “Vocação para os Desastres”, publicado em 2026, é a sua primeira coletânea de contos.
Talvez não seja indiferente que o percurso do autor ligue dois territórios tão distintos como Boticas e o Algarve. Entre a paisagem transmontana de origem e a paisagem algarvia, onde hoje vive há uma espécie de deslocação que que se percebe na sua escrita, a atenção aos lugares, às marcas que deixam nas pessoas e às vidas que se constroem na relação com eles. Entre o que é dito e aquilo que permanece por dizer, José Carlos Barros constrói uma narrativa de fragmentos, de deslocações e de pequenas catástrofes humanas – e talvez o mais interessante seja precisamente isso: os desastres de que fala não são necessariamente acontecimentos extraordinários, muitas vezes são apenas os momentos em que uma vida deixa de ser aquilo que julgávamos que era.
O primeiro conto é uma história de amor, resistência e desistência, que termina de forma dramática, tendo como pano de fundo a pandemia de Covid-19. A partir daí, o livro parece anunciar uma das suas linhas de força: personagens confrontadas com situações-limite, com aquilo que se desfaz ou que, apesar de todos os esforços, não pode ser salvo. Personagens atraídas para zonas de desequilíbrio e sobre a dificuldade de permanecerem intactas, quando alguma coisa se altera profundamente. Mas também pode ser visto como um livro sobre o poder da literatura para fixar esses instantes de ruptura.
A arte de construir uma narrativa metafórica e profundamente sugestiva prolonga-se no segundo conto. Mudam o contexto e as personagens, permanece a tensão entre a necessidade de racionalizar o que se vive e a impossibilidade de controlar as emoções que, progressivamente, lançam uma espécie de névoa sobre a realidade.
Ao longo dos dezassete contos, alguns deles micro-histórias, somos transportados para universos distintos mas sempre imersivos, graças à capacidade do autor de comunicar a vida das personagens com uma economia de meios particularmente eficaz. Há lugares, deslocações, encontros e desencontros, mas sobretudo há vidas surpreendidas num determinado momento da sua existência.
José Carlos Barros consegue ligar-nos às suas personagens, colocar-nos no epicentro de alguma situação e confiar que não precisamos de mais, certo de que já agarrámos o fio e o sentido. E isso é talvez uma das qualidades mais interessantes deste livro. O autor não sente necessidade de dizer tudo. Confia na capacidade do leitor para preencher os silêncios, estabelecer relações e continuar a viagem para lá daquilo que está efectivamente escrito.
Há ainda uma particularidade que acrescenta outra camada de interesse ao conjunto. Quase todos estes contos ou textos foram publicados anteriormente, de forma autónoma e em momentos distintos, em jornais, revistas, plataformas digitais e publicações colectivas, escritos ao longo das últimas décadas. O livro pode, por isso, ser lido também como uma espécie de cartografia da trajectória literária de José Carlos Barros. Textos escritos em tempos diferentes encontram-se agora no mesmo território, como se a publicação em livro permitisse olhar retrospetivamente para uma escrita em movimento. E o escritor sabe que, para contar esses momentos, não precisa de explicar tudo. Basta deixar-nos ver.











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