“Pirilampo” (Orfeu Negro, 2026) é um álbum particularmente delicado sobre a imaginação, a memória e a passagem do tempo. Uma verdadeira homenagem à infância, à criatividade e à imaginação.
Uma pequena bola amarela, misteriosa e irrequieta, acompanha a menina por toda a parte: “Guardei-a num frasco, como se fosse um pirilampo”. É o seu tesouro, aquilo que parece abrir todas as portas e tornar possível o impossível. Afinal, que bola amarela é esta? A menina não sabe. Os pais chamam-lhe, simplesmente, imaginação.

A partir da pequena bolinha amarela, uma imagem aparentemente simples, Gonçalo Viana constrói uma narrativa profundamente poética sobre aquilo que a imaginação representa nas nossas vidas. Na infância, ela é quase uma companheira inseparável, permitindo inventar mundos, renovar o quotidiano, conceder novos significados às coisas e olhar para a realidade como se esta pudesse ser sempre diferente. O pequeno pirilampo torna-se, assim, uma espécie de metáfora da própria capacidade de imaginar, uma luz que acompanha a personagem e que lhe permite descobrir e reinventar o mundo.
O percurso da narrativa encaminha o leitor por uma longa viagem, da infância à velhice, das boas memórias ao esquecimento. Sem transformar o envelhecimento numa história triste, o autor e ilustrador aborda uma realidade que faz parte da vida e que, muitas vezes, não é fácil esclarecer junto dos mais jovens. Afinal, o que acontece quando começamos a perder algumas das nossas memórias? Se a memória nos liga ao que vivemos, a imaginação permite continuar a criar, a sonhar e a atribuir sentido à existência. Entre aquilo de que nos lembramos e aquilo que esquecemos, existe ainda aquilo que somos capazes de imaginar – e talvez seja esta a ideia mais sensível e bela do livro.

Gonçalo Viana cria aqui um universo vibrante, simbólico, poético e cheio de movimento. A cor, a composição e a transformação das personagens ajudam a tornar visível aquilo que é difícil de representar: a passagem do tempo, a força da imaginação e a fragilidade da memória. A pequena bola amarela atravessa as páginas como um fio condutor, acompanhando a personagem nas diferentes etapas da vida e adquirindo novos significados à medida que a narrativa avança.
“Pirilampo” é um livro maravilhoso sobre a importância de não perder a capacidade de imaginar, porque talvez a imaginação seja uma das pequenas luzes que nos acompanham ao longo de toda a vida.











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