“Nunca mais ireis esquecer esta noite” é a promessa repetida da narradora principal de “Orquestra” (Dom Quixote, 2026). Uma narradora que se apresenta sob a forma de uma adivinha e que não é outra senão a música – uma vibração que, durante uma festa popular, além de pairar sobre a massa humana, também invade o interior dos indivíduos, obtendo acesso aos recantos mais recônditos de cada mente, numa noite em que a concentração de gerações e de trajectos de vida condensa a história de um lugar.
O autor que teve a ideia de transformar a música numa entidade senciente e dotá-la de uma linguagem magnífica foi o catalão Miqui Otero, que também concebeu Valdeplata, a aldeia galega onde decorre a acção: um vale chuvoso, repleto de lendas, cercado por eucaliptos e estradas mal asfaltadas, com mais óbitos que nascimentos, onde persistem cicatrizes da guerra civil e umas poucas centenas de almas ganham a vida entre a agricultura, a indústria madeireira, uma fábrica de cerâmica e os bares que se animam quando chega o Verão. O resultado da agitação da última festa, apresentado logo no início para preparar a narração retrospectiva dos eventos, é um cenário pejado de destroços, onde não falta a referência a uma morte, o que desperta a curiosidade imediata do leitor quanto ao sucedido.
Para revelá-lo, o autor emprega outra estratégia interessante: a festa deverá culminar num sorteio de rifas, e o rapaz de onze anos que as transporta foi incumbido de pedir a todos os participantes que escrevam num papelinho uma mensagem a ser lida pela orquestra. Dessa forma, o discurso da música alterna com o de várias personalidades interpeladas por este jovem mensageiro, que se revela um excelente ouvinte.
A galeria de personagens, que a música apresenta resumidamente, em fotografias instantâneas precedendo a grande noite, é assim desenvolvida em toda a sua riqueza. Inclui, por exemplo, um escritor, um músico frustrado, uma candidata a política carente de atenção e disposta a aderir a qualquer partido que a aceite, uma mulher sofrida que ganhou fama injusta de ser tola ou um idoso que vai cumprir o sonho secreto de se apresentar em público com um vestido de lantejoulas negras. Enquanto uns se revelam, não falta quem componha personalidades fictícias. Há também casais próximos e desavindos, rivalidades antigas, despeito, vingança, desejos, emoções contraditórias, e até memórias de crimes passados.
O primeiro encontro do rapaz é com o conde local, culto e idoso, em litígio com o único filho. Ciente de que dispõe de pouco tempo de vida, confia ao pequeno um segredo só para ele e uma mensagem destinada a ser escutada por todo o vale, garantindo “um final inesperado”. De facto, a noite terá triunfadores inesperados, mas o final não será tão dramático quanto prometia o início, e alguns arcos narrativos ficarão demasiado abertos para o gosto de alguns leitores. O grande trunfo do texto, a par da estrutura narrativa, será, talvez, a representação da comédia da vida num contexto onde é esperado que todos estejam alegres e as percepções são exacerbadas. A aldeia que não pretende ser exemplo de coisa nenhuma torna-se um paradigma da magnitude de todas aquelas coisas que acontecem sem que ninguém pareça reparar, e da forma como a nostalgia de tempos idos se pode conjugar com a construção de hipóteses de futuro.











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