O que é, afinal, uma casa? É muito mais do que um conjunto de paredes, janelas, portas, móveis, corredores e objectos. É feita de memórias, cheiros, silêncios, confidências, brincadeiras e alegrias, risos e longas conversas, de abraços e zangas, mortes e nascimentos. É o lugar onde o quotidiano se repete e, ao mesmo tempo, a imaginação consegue reinventá-lo. “Em Casa” (Akiara books, 2026) convida-nos a ficar em casa e a olhar demoradamente para aquilo que julgávamos conhecer, a percorrer os espaços familiares com olhos novos e descobrir que, afinal, uma casa pode esconder novos mundos.

O livro reúne poemas, que percorrem os diferentes recantos e detalhes de uma habitação através do olhar brincalhão de uma criança. A cozinha pode transformar-se num iglu; a porta numa “boca de madeira”, que se abre e suspira de tranquilidade; a despensa pode ser o território secreto de uma bruxa; no estendal podem aparecer fantasmas, que nos convidam a “pregar sustos, buuu!”; uma cama poderá tornar-se o lugar perfeito para contar segredos; uma mesa pode transformar-se; uma peça de roupa pode ganhar voz; um objecto banal pode abrir uma passagem para o maravilhoso. M. Carmen Aznar, a poeta, compreende uma coisa essencial: na infância, a imaginação é uma forma de habitar. Estamos perante um livro mágico.
Retomemos a questão inicial: o que é, afinal, uma casa? Um espaço de transformação, de múltiplas possibilidades. Uma casa ganha significado através das pessoas que a habitam, mas também através daquilo que imaginamos dentro dela. Uma criança que transforma a cozinha num iglu não está apenas a brincar, mas sim a ampliar o espaço que tem à sua disposição. “Em Casa” é, também, um livro sobre a importância das casas na construção da nossa identidade. Precisamos de lugares onde possamos regressar, reconhecer objectos, guardar memórias e sentir alguma forma de pertença. Precisamos de espaços que nos protejam, mas também de espaços onde possamos imaginar, experimentar e ser diferentes.

As ilustrações de Raquel Catalina não se limitam a acompanhar os poemas, expandem a capacidade de transformar o quotidiano. A ilustradora observa a casa com o mesmo espanto de uma criança, encontrando possibilidades onde o olhar adulto talvez já só veja objectos.
Trata-se de um livro pequeno no formato mas grande naquilo que propõe, convidando-nos a entrar em espaços familiares para nos recordar que nenhum lugar é completamente conhecido quando ainda somos capazes de imaginar. Afinal, o que é uma casa? Os arquivos da nossa vida, memórias, um lugar de imaginação, um espaço onde se criam novos mundos. Já observaram bem a vossa casa? Que maravilhas estarão nela escondidas?











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