“O Sétimo Homem e outros contos” (Casa das Letras, 2026) reúne, numa adaptação para banda desenhada com texto de Jean-Christophe Deveney e ilustrações e cor de PMGL, nove narrativas do escritor japonês Haruki Murakami, quase todas elas situadas no ponto de intersecção entre a realidade do quotidiano e o espírito do fantástico.
“Sapo salva Tóquio” dá-nos a conhecer um réptil altruísta, que quer salvar o Japão de um terramoto de proporções gigantescas. Para isso, entra sem ser convidado em casa de Katagiri, alguém que trabalha no departamento de crédito de um banco por baixo do qual, acredita o sapo, se dará o epicentro da tragédia. Um conto onde se aponta o lugar do imaginário: “onde somos vencedores e onde sofremos as nossas derrotas”.

“O segundo ataque à pátria” mergulha no universo dos segredos de casal, girando em redor de dicotomias clássicas como o bem e o mal, o certo e o errado. Há também um padeiro dado à melomania, que tem sobre si a maldição de Wagner a poisar como uma nuvem negra. Um mistério conjugal servido aos quadradinhos.
Em “Xerazade”, mesmo sem correr o risco de lhe ser cortada a cabeça a cada final de dia, a companheira de Habasa – que não pode sair de casa – veste a pele de contadora de histórias, em capítulos que são lidos duas vezes por semana após a cópula.
“A menina dos anos” conta-nos a história de um desconhecido proprietário de um restaurante, que todos os dias manda o gerente entregar no seu quarto as refeições confeccionadas no restaurante. Um conto que revela uma certa costela de Aladino – só que em modo redux: há a oferta de único desejo, que deve ser muito bem ponderado.

“Samsa apaixonado” recupera a personagem maior de Kafka, que aqui surge disforme, esfomeado, amnésico e apaixonado por uma “minorca corcunda”.
“Onde poderei encontrá-lo” chega-nos a preto e branco, dando a conhecer um marido que parece ter desaparecido entre dois andares.
“O Sétimo Homem” debruça-se sobre a paralisia do medo, apontando à recuperação de um rumo e ao confronto com aquilo que mais nos aflige.

Em “Sono”, tendo como ponto de partida – e chegada – uma obsessão com Anna Karenina, o narrador partilha o seu estado de bebida energética: “Há dezassete noites que não durmo”. Há por aqui algum desejo de morte, bem como um certo desapontamento nostálgico: “O que é feito de quem fomos?”.
A fechar está “Tailândia”, onde se descobre o amor pelo Jazz, se arrisca uma fuga em frente e se vivem relações frustradas, tudo durante umas férias em Banguecoque.
As ilustrações são de traço grosseiro, mostrando o lado mais disforme e grosseiro das personagens, a que se juntam cores contidas, muitas vezes num sépia que parece querer transportar o leitor para um limbo entre a realidade e a ficção. Um livro apontado sobretudo aos incondicionais de Murakami, ou para quem o queira descobrir o seu universo numa linguagem alternativa à do romance.











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