“Selvagem” (Orfeu Negro, 2025) é um extraordinário álbum ilustrado, de enorme riqueza estética e simbólica, destinado aos leitores mais novos, que interroga conceitos como civilização, natureza, normalidade e liberdade.
“Ninguém se lembrava de como ela tinha chegado à floresta, mas todos sabiam que tudo estava certo. Toda a floresta a adoptou. O pássaro ensinou-a a falar. O urso ensinou-a a comer. A raposa ensinou-a a brincar. E ela tudo entendia e sentia-se feliz.”
Tudo parecia seguir a ordem natural da vida. A protagonista, uma jovem forte, feliz e livre, vivia em perfeita harmonia com a natureza, mas um dia chegaram à floresta novos animais, que a acharam “estranha…e ela achou-os estranhos também”, fazendo chegar ao fim a harmonia.

O texto é económico, mas eficaz. As frases recusam qualquer excesso explicativo, como se a autora confiasse no leitor, dando-lhe liberdade para admirar as ilustrações, gozar a liberdade espontânea da natureza e saborear cada palavra, escutar os silêncios e, deste modo, construir sentidos, sem qualquer tipo de juízos implícitos ou explícitos. Emily Hughes nunca afirma que a natureza é superior à civilização, ao progresso, nem transforma os adultos em figuras maléficas, limitando-se a retratar o desconforto experienciado pela protagonista. A autora convoca o leitor através da ilustração, onde o livro alcança uma dimensão extraordinária, num texto para dialogar e reflectir sobre os limites, as regras, os padrões, a integração e a identidade.
Emily Hughes revela-se uma ilustradora de enorme sensibilidade, criando ilustrações de grande intensidade emocional e rara beleza plástica. A floresta surge representada como um organismo vivo, exuberante e acolhedor. As cores são densas, luminosas e vibrantes, dominadas por verdes profundos, ocres quentes e tonalidades naturais, que transmitem simultaneamente movimento e serenidade. A vegetação envolve as personagens, os animais parecem respirar ao ritmo da paisagem e a própria composição das páginas sugere uma natureza em permanente transformação. Quando a protagonista interage com os humanos, os espaços tornam-se mais rígidos e organizados. As cores perdem a vitalidade e os enquadramentos tornam-se mais fechados, traduzindo visualmente a sensação de aprisionamento.

A expressividade da protagonista é excepcional, o seu pequeno corpo comunica através da postura livre, do olhar curioso, dos gestos próprios de uma criança totalmente integrada no seu ambiente. Há, também, uma dimensão simbólica fortíssima neste livro. Afinal, quem é esta protagonista? Será a infância? A criatividade? A liberdade individual? Afinal, que metáfora será esta? Um álbum ilustrado excepcional, que justifica ter sido publicado em 20 línguas e contar com mais de 200 mil exemplares vendido em todo o mundo. Leia e dê a ler.










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