“Carne” (Relógio D’Água, 2026), de David Szalay, ganhou o Booker em 2025. Se houvesse um prémio para o protagonista mais lacónico do ano, esse iria certamente para István, o enigmático húngaro que seguimos nas páginas do livro. Raramente se viu uma personagem central com tão pouco para dizer, tão imune ao fogo da eloquência; o que não significa que seja desprovida de interesse — antes pelo contrário: as centenas de respostas de «okay» e «iá» que povoam o discurso de István só nos aguçam a curiosidade pelo subtexto da obra.
A prosa minimalista de Szalay é tão seca quanto o seu protagonista. Os diálogos reduzem-se frequentemente a monossílabos. Mesmo nos momentos mais dramáticos, István não se expande, não se explica, obrigando-nos a ver além das palavras para o compreender. Szalay recusa atribuir ao protagonista uma eloquência que ele não tem, e essa recusa é, em si mesma, uma forma de honestidade.
No primeiro capítulo, István, com 15 anos, tem a sua primeira experiência sexual com uma vizinha bastante mais velha. O tímido adolescente vive com a mãe e ajuda habitualmente a mulher com as compras, já que o marido dela tem um problema cardíaco. De início, uma mulher de 42 anos é um ser invisível para o rapaz. A aproximação lenta, ambígua e profundamente desconfortável culmina em sexo, o que o surpreende, porque ele até acha a vizinha um pouco repugnante — ainda que isso, de alguma maneira, o excite. Szalay explora muitas vezes a perversidade do desejo ao longo do livro. Aquilo que o romance encena como uma aproximação gradual é também uma relação de abuso, por mais opaca que seja a percepção de István. O adolescente acaba por se apaixonar, o que causa alarme na mulher, que põe fim à relação. A obsessão desconsolada de István leva a um desfecho trágico que o condena ao reformatório.
O capítulo seguinte começa vários anos depois. István apaixona-se de novo, desta vez por uma mulher da sua idade, mas sofre uma rejeição humilhante. Depois de algum tempo à deriva, incapaz de arranjar trabalho, acaba por se alistar no exército. No terceiro capítulo, após mais um salto, seguimos István no regresso do Iraque à Hungria, onde passa a viver com a mãe, enquanto lida com o stresse pós-traumático da guerra. Muitos dos momentos mais determinantes da vida de István acontecem fora das páginas, nos interregnos entre capítulos.
Mais tarde, encontramo-lo em Londres, onde, através de um encontro fortuito, acaba por arranjar emprego como motorista de uma família abastada. É nesta altura que se envolve com Helen, a mulher do patrão. A história avança sem que consigamos adivinhar para onde se dirige, e a norma repete-se: da vizinha húngara a Helen, István raramente toma a iniciativa. É sempre escolhido — pelas mulheres, pelos empregos, pelas circunstâncias. A sua vida não é construída, simplesmente acontece-lhe. István nunca parece refletir sobre nada, nem parece ter memória; nunca sabemos nada sobre o pai, sobre o que sentiu por deixar a Hungria ou sobre o que pensa da vida luxuosa em que tropeça com Helen.
István existe num momento histórico preciso. Os acontecimentos externos surgem como pano de fundo: a guerra do Iraque, a migração do Leste europeu para o Ocidente e a pandemia não são temas, são contexto. Mas esse contexto diz algo importante: a vida de István é também moldada por forças políticas e socio-económicas que estão completamente fora do seu controlo.
“Carne” não é um livro fácil de abandonar. Está muito bem escrito, mas também não é fácil de abraçar. István sofre — o alcoolismo, a depressão e os traumas acumulam-se ao longo das páginas —, mas, quando o romance termina, fica a sensação de termos acompanhado um fantasma. Estivemos ali, vimos tudo, e ele nunca se revelou verdadeiramente, mas talvez seja esse o ponto. “Carne” não é um romance de ideias, mas de atmosfera. Szalay já declarou que o seu propósito era escrever na perspectiva do corpo e não da mente, e daí resulta um romance sobre um homem movido pelo instinto e pelo desejo. No fim, o título diz tudo: não se trata de um livro acerca de uma alma à deriva, mas do que significa atravessar o mundo, numa máquina feita não de pensamento mas de carne.











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