Quando Rita Preta regressa a casa, após um dia de trabalho na caixa de um supermercado, não se surpreende demasiado por não encontrar o mais velho dos três filhos. Afinal, tinham tido uma “briga” complicada da última vez que se viram. Sem conceber a possibilidade de ele não voltar, ela prepara um discurso e punições. Mas o tempo passa, o adolescente não volta e a inquietação instala-se, sendo em breve substituída pela angústia. Rita já sobreviveu a outras catástrofes – como a correnteza do rio que, noutras paragens, arrebatou os irmãos mais novos, que estavam ao seu cuidado –, mas o desaparecimento do primogénito vai abalar os fundamentos do quotidiano que se esforçou por construir e mudar o rumo de várias vidas.
Rita é a protagonista de “Coração Sem Medo” (Dom Quixote, 2026), romance com o qual Itamar Vieira Júnior encerra a Trilogia da Terra, iniciada com “Torto Arado” (ler crítica) e continuada em “Salvar o Fogo” (ler crítica). Embora cada livro possa ser lido independentemente, une-os uma ancestralidade partilhada, bem como a preocupação do autor com as múltiplas desigualdades que teimam em assolar as vidas das suas personagens.
A mãe-heroína desta narrativa está unida por laços de parentesco a antigos habitantes da fazenda Água Negra. Rita nunca conheceu o pai, sente-se abandonada pela mãe – que partiu para trabalhar na cidade e nunca mais a contactou – e foi enviada pela avó para servir como empregada doméstica nessa mesma cidade, há quase 30 anos, quando ainda mal tinha saído da infância. O seu conhecimento directo do racismo e da exploração é partilhado por outras personagens da sua comunidade, onde as condições de vida são deploráveis, mas as amizades podem ser fortes, mesmo quando o medo se impõe como medida de auto-preservação – medo da criminalidade, mas também dos abusos da polícia, que, como Rita descobre, lhe levou o filho.
Num texto onde é notório o recurso à simbologia da água, Rita vê-se transportada outra vez “por uma corrente violenta”. As deslocações à esquadra, aos hospitais e até ao necrotério e à prisão, enquanto tenta manter um trabalho remunerado e vê a sua própria vida escrutinada, compõem uma autêntica peregrinação. A “cada dia que o calendário avança”, vai-se instaurando a certeza de que aquele filho não retornará, mas ainda que o ambiente doméstico piore e as ameaças comecem a surgir, ela luta por não ceder diante da desesperança, expondo-se cada vez mais para pressionar a devida investigação.
A certa altura, aconselhada por um advogado, Rita regressa temporariamente com os filhos às origens, procurando alento numa tentativa de apurar o destino da sua avó. Ganha, então, maior consciência do quanto partilha com os antepassados, e essa dimensão histórica da narrativa manter-se-á até ao fim. Para além da revolta e de uma mágoa comparável a “um espinho cravado na carne”, desenvolve-se uma história que não é apenas sua e revela a essência de um ser que não abdica da sua dignidade.











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