Há livros inspiradores. “O Poder do Povo” (Lilliput, 2026) é um desses livros, inspirador no que diz respeito ao papel da acção colectiva na transformação das sociedades. A narrativa desenvolve-se de forma clara e envolvente, conduzindo o leitor por diferentes momentos históricos em que o povo, unido, se ergueu para reivindicar direitos, justiça e liberdade.
A autora, Rebecca June, esclarece que o leitor ficará a “conhecer exemplos de protestos pacíficos que trouxeram mudanças em todo o mundo – da Índia à Nova Zelândia, do reino Unido à Estónia”, acrescentando ainda que as “histórias deste livro provam-nos que quando um grupo de pessoas corajosas defende aquilo em que acredita… acontece, coisas surpreendentes”. Histórias como “a marcha do Sal de Gandhi, na Índia, em 1930”; “O acampamento pacifista de mulheres de Greenham Common, no Reino Unido, em 1982”; “A Marcha Indígena pelo Território e a Dignidade, na Bolívia, em 1990”; “A revolução dos Cravos, em Portugal, em 1974”; ou, ainda, “As sextas-feiras pelo Futuro, na Suécia, em 2019”, num total de catorze protestos, todos eles pacíficos, que foram capazes de provocar mudanças profundas, dando visibilidade a causas muitas vezes silenciadas. Ao longo das páginas, percebe-se que a história não é feita apenas por líderes ou instituições, mas também por cidadãos comuns que, através da sua voz e acção, contribuiram para moldar o rumo das sociedades.

Num mundo contemporâneo marcado por grandes desafios sociais e políticos, o livro sublinha a importância de protestar de forma pacífica como instrumento fundamental de mudança, da ética e do dever cívico. Através do esclarecimento e enquadramento de cada protesto apresentado, torna-se evidente que a participação cívica e ativa é um pilar da democracia e uma via essencial para a defesa dos direitos humanos.
Recordamos a “Revolução do Jasmim”, na Tunísia, onde o “governo era cada vez mais repressivo e a liberdade de expressão estava limitada [violando um dos direitos humanos inscritos na Carta Universal dos Direitos Humanos]”, ou as pessoas negras, um pouco por todo o mundo, que continuam a ser discriminadas simplesmente pela cor da sua pele. “Nos Estados Unidos, têm três vezes mais probabilidades de serem violentadas pela polícia do que as pessoas brancas”, Para saber mais sobre esta probabilidade, lê sobre o protesto que ocorreu nos Estados Unidos, em 2020, que ficou conhecido por Black Lives Matter. À medida que se avança na leitura, toma-se consciência de que o protesto, quando é feito de forma consciente e não violenta, afirma-se como uma expressão legítima de cidadania activa e participativa, capaz de questionar injustiças e promover sociedades mais justas e inclusivas.
As belíssimas ilustrações desempenham um papel essencial na construção desta narrativa. Expressivas e dinâmicas, captam a energia, a diversidade e a emoção dos movimentos colectivos. As cores, as composições e o cuidado nos detalhes transmitem força aos protestos, mas também a sua dimensão humana: os rostos e gestos que revelam esperança, resistência e solidariedade. As guardas, inicias e finais, são uma espécie de óculo que permite vislumbrar alguns sinais, movimentos, e que simultaneamente funcionam como convite ao leitor para que entre, páginas adentro, conhecendo episódios marcantes da história, mas não só, reflectindo também sobre o seu próprio papel enquanto cidadão.

Que tipo de cidadão sou? De que forma a participação em protestos pacíficos pode contribuir para a defesa dos direitos humanos? Será que todas as vozes têm o mesmo poder de provocar mudança? Como podemos amplificar as que são menos ouvidas? Como podemos, no nosso quotidiano, participar de forma consciente e construtiva na vida cívica? O que significa, na prática, ser um cidadão activo numa sociedade democrática? Estas e muitas outras questões são suscitadas pela narrativa ao leitor.
Um magnifico livro que nos fala de acontecimentos históricos, de pessoas que se unem em torno de valores comuns, fazendo da sua voz um instrumento de transformação. Não é [apenas] um livro de História, mas sim um convite ao diálogo, ao conhecimento e à reflexão sobre a nossa cidadania. Afinal, qual é o poder do Povo?











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