Em 1974, a escritora Ursula K. Le Guin publicou um conto composto por extractos de uma revista fictícia, editada por uma igualmente fictícia Associação de Terolinguística – termo que cunhou para designar o estudo e a tradução das “produções escritas” de animais e plantas. Décadas mais tarde, a filósofa e psicóloga Vinciane Despret – professora universitária de Filosofia da Ciência e participante empenhada no debate acerca das capacidades cognitivas e afectivas dos animais – inspirou-se directa e assumidamente nesse texto para desafiar a nossa visão antropocêntrica do mundo, com “Autobiografia de um Polvo e Outros Relatos de Antecipação” (Antígona, 2026).
O livro contém três capítulos, cada um centrado num animal específico – nomeadamente, as aranhas, os vombates e os polvos – mas incluindo, também, referências a outros seres, desde formigas a chimpanzés. No primeiro capítulo, uma alteração da percepção sensorial entre aracnólogos leva à conclusão de que as aranhas comunicam através de vibrações. No segundo, é debatido o valor expressivo das construções que os vombates edificam com as próprias fezes, que parece ir além da demarcação do território e da identificação da toca. O terceiro envolve a descoberta de fragmentos de texto, escritos com tinta de polvo sobre pedaços de cerâmica, numa grafia desconhecida, e progride para experiências de apuramento de sentidos humanos, as quais permitem novas interacções com os polvos e conduzem a competências e saberes assombrosos.
Os textos, subtilmente ligados uns aos outros, constroem-se pela articulação de excertos de actas, relatórios, discursos e correspondência. A opção por um estilo académico retira alguma fluidez à escrita, mas isso é compensado pela geração de uma impressão de verosimilhança, que torna fascinante a exploração racional das possibilidades apresentadas e não é incompatível com arroubos poéticos. Essa veracidade simulada é reforçada pelas referências a figuras históricas de escritores e investigadores, pelo emprego de neologismos que aproveitam bem palavras já existentes, pela inserção de referências bibliográficas e pela invocação de factos que nem sempre são imediatamente reconhecidos como tal (por exemplo, é verdade que os vombates produzem fezes cúbicas).
Se os dados acumulados acerca do comportamento animal – desde as brincadeiras até indícios de algo que pode ser considerado um sentimento religioso – já seriam suficientes para levar-nos a questionar o que significa ser-se humano, as hipóteses aqui expostas sobre outras percepções e consciências suscitam ainda mais espanto face aos enigmas da natureza. Neste mundo futuro, os investigadores criticam os paradigmas simplistas e os preconceitos de alguma ciência do passado e do presente. O desbravar do “universo comunicacional dos animais”, com tudo aquilo que uma língua pode revelar sobre uma cultura, é acompanhado pela tomada de consciência humana acerca da pobreza dos nossos conhecimentos e da falta de palavras para designar certos fenómenos. Se alguém pensava que já nada de novo poderia vir da ficção científica, este prodígio de criatividade, nos limites entre ciência, filosofia e especulação, irá certamente surpreender.











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