Livro após livro, Inês Viegas Oliveira continua a surpreender e a maravilhar-nos, reinventando temas aparentemente simples e transformando-os em experiências de leitura profundas e inesperadas, assumindo-se como umas das ilustradoras mais singulares da literatura infantil contemporânea em Portugal. O seu traço, as cores, os detalhes, distinguem-se pela forma como cruza pensamento filosófico, linguagem depurada e exploração visual.
“Contas-me?” (Planeta Tangerina, 2025), é um livro delicado, sensível, elegante e inesperado, onde contar deixa de ser apenas um exercício matemático para se transformar numa forma de compreender o mundo e de nos contar histórias.

A narrativa constrói-se a partir de uma sucessão de pequenos gestos e observações do quotidiano: ovos, as orelhas de um gato, galinhas, janelas, papoilas, o tiquetaque de um relógio ou milhentas cigarras. Um inventário sensível da experiência humana, onde a arte de contar é, simultaneamente, a arte de criar narrativas, de contemplar, sentir ou reflectir.
Cada página convida a parar, a observar e a descobrir, como se contar fosse também uma forma de olhar com mais atenção. O tempo para permanecermos no (e)terno tempo dos afectos, memórias e mutações. Tempo de crescimento e amadurecimento, de observação e contemplação, de abraçar emoções e diferentes sensibilidades. Tempo que nem sempre é linear – o tempo matemático não serve apenas para sabermos sobre as grandezas através de unidades padronizadas (segundos, minutos, horas, dias), porque talvez nem tudo seja mensurável – será assim? Dar visibilidade ao tempo: é este o objecto central desta reflexão visual.

O traço de Inês Viegas Oliveira constrói imagens que ampliam e interrogam o texto, por mais curto que seja. A composição visual procura a ordem num caos natural da vida. Há, no virar das páginas, uma musicalidade implícita nesta repetição de números, que aproxima o texto de uma cadência poética, convidando à leitura em voz alta, a par, dialogada.
As guardas do livro prolongam essa experiência desde o primeiro momento. Se as guardas iniciais oferecem ao leitor um enquadramento da contagem e da observação, convidando o leitor a entrar no jogo antes mesmo de a narrativa começar, as guardas finais apresentam uma grande panorâmica do mundo real, onde trespassamos o tempo e contamos, sentimos, contemplamos, crescemos, festejamos, vivemos enfim. Um maravilhoso pequeno-grande livro.











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