À superfície, “Ulysse & Cyrano” (Asa, 2026) parece encerrar uma história comum, mil vezes repassada em longas-metragens ou romances de todo o tipo: um jovem herdeiro com o destino traçado, que verá os seus sonhos em conflito com aquilo que dele se espera pela linhagem familiar. O ponto de partida pode ser este, mas Stéphane Servain, Xavier Dorison e Antoine Cristau tratam de lhe acrescentar os melhores, ingredientes, temperos e ervas aromáticas, cozinhando um álbum desenhada que está entre as grande leituras deste ainda precoce ano de 2026.
Começamos por ser apresentados a Cyrano, um chef destinado à grandeza e a vencer o prestigiado concurso promovido pelo Clube dos Cem, que defende o paladar e a cozinha nacional francesa face à “ameaça de fórmulas químicas importadas de países onde não sabem sequer cozinhar uma galinha na panela”. O desfecho, porém, não corre como previsto, e Cyrano vê-se batido por Gédéon Lecoq, seu aprendiz e até então braço-direito, o que o faz pegar fogo ao restaurante que mantinha, fazendo com que se torne um pária junto dos seus conterrâneos, vivendo nas margens da sociedade na promessa constante de jamais regressar à cozinha de um restaurante.

Quinze anos depois destes acontecimentos – estamos em 1952 -, conhecemos o jovem Ulysse, um privilegiado que não se sente como tal, filho do controlador Charles Ducerf, que quer que o filho estude matemática para herdar o negócio de família. Porém, quando se vê acusado de colaboracionismo com os nazis durante a II Guerra Mundial, Ducerf decide enviar o filho e a mulher – que sofre de uma quase anorexia e uma tristeza permanente – para a Borgonha, fugindo ao escândalo sob um apelido falso enquanto aguardam por uma decisão dos tribunais.
Neste mundo rural, irá perder-se de amores por Marie, filha da dona do albergue que fornece as refeições à população e à família, tentando escapar ao que a mãe lhe impõe desde o primeiro momento: “O menino não tem nada em comum com estas pessoas”. Numa dessas tentativas de integração, vê-se envolvido num acidente do qual é salvo por Cyrano, que o conforta com uma refeição que lhe transformará a vida, fazendo-o redescobrir a comida e passando a frequentar uma missa celebrada por Pica-Pau, um guarda-florestal; Édouard, o padre que à mesa tira férias; Célestin, vinicultor; e, claro, Cyrano.

Trata-se de uma história de descoberta e redenção, de auto-descoberta e questionamento sobre o que é a felicidade, de tomar o pulso ao mundo e, ainda assim, decidir seguir as batidas que só o próprio pulso oferece. Pelo caminho, “Ulysse & Cyrano” oferece ainda uma máxima gastronómica que poderá ser aplicada a outros cozinhados da vida: “Nunca traias a tua vontade de cozinhar; por preço nenhum… faz o que te dita o coração e nada mais! In voluptate veritas!!!”.
Para o final, como se não bastassem as páginas que deixarão o leitor com o estômago a roncar, pronto a assaltar os restos que habitam o frigorífico ou a pedir a um estafeta que lhe traga qualquer coisa para acalmar a fome, servem-se algumas receitas para cozinhar, comer e chorar por mais: uma titânica terrina de coelho, ovos em molho meurette e frango com lagostins. Bom apetite.











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