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As Aventuras de Tintin - Integral 1, Hergé, Tintin, Asa, Deus Me Livro, Crítica,
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“As Aventuras de Tintin – Integral 1” | Hergé

Por Pedro Miguel Silva · Em 12/01/2026

Foi uma das grandes notícias de 2025 no universo da banda desenhada: o regresso, às livrarias portuguesas, de Tintin e do universo criado por Hergé com “As Aventuras de Tintin – Integral 1” (Asa, 2025), o primeiro volume de uma colecção que será composta por seis álbuns integrais em capa dura, num total de 18 aventuras deste intrépido e destemido repórter. Uma colecção que apresenta as histórias de forma cronológica, permitindo redescobrir o percurso inicial daquele que se tornou um dos personagens mais icónicos da banda desenhada mundial. Este primeiro volume inclui os álbuns “Tintin no País dos Sovietes” (1930), “Tintin no Congo” (1931) e “Tintin na América” (1932).

Publicado em 1929 a preto e branco – a versão a cores viria mais tarde, álbum que a Asa publicou recentemente -, “Tintin no País dos Sovietes” foi a primeira aventura de Tintin, aqui ainda longe do ar esguio e refinado que viria a ganhar. É aqui que, depois de saltar para o volante de um potente descapotável, ganharia uma muito estilosa poupa, um penteado de Hergé – então com 21 anos e sem qualquer formação em desenho ou artes de cabeleireiro – que ficará como imagem de marca deste incansável explorador, sempre na companhia de Milu – que, neste arranque, parece ter uns quilinhos extra.

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A missão é entregue a Tintin pelo «Petit Vingtième», jornal que quer manter os leitores a par com o que se passa no estrangeiro: ir de visita à União Soviética, país de onde promete, antes de entrar no comboio, enviar “postais, vodka e caviar”. Em pouco tempo, Tintin ver-se-à acusado de destruir 10 carruagens e de ter feito desaparecer 218 pessoas, mostrando igualmente ter pouco jeito para a condução, seja de carros, motos ou…locomotivas, mas mostra ter mãozinhas para invenções mecânicas ou uma perninha no boxe.

Numa época em que a Guerra Fria não tinha ainda arrefecido – ou sequer recebido tal epíteto -, a grande missão de Tintin é a de desmascarar o paraíso vermelho, mostrando toda a pobreza, mendicidade, repressão e atraso tecnológicos que habitavam o país que ficava do outro lado da cortina – e do mundo.

Foi, na altura, uma estreia pouco auspiciosa para Hergé e o seu Tintin. Hergé era então editor e ilustrador do Le Petit Vingtième, o suplemento infantil do jornal conservador belga Le Vingtième Siècle, conhecido pela sua posição explicitamente pró-fascista e anti-semita. Daí que não fosse de estranhar que o director do jornal, de seu nome Norbert Wallez, lhe encomendasse uma BD passada na União Soviética, que de forma mais ou menos subliminar mostrava oposição ao governo ateísta e de esquerda do governo soviético, sendo por demais evidentes as ideias anti-marxistas e anti-comunistas como forma de propaganda junto dos jovens leitores.

Mais tarde, num exercício de mea culpa, Hergé viria a lamentar a natureza propagandista da obra, tendo feito tudo para impedir a sua reedição nas décadas seguintes. Mas também a sua qualidade, que diz ter sido resultado da “transgressão da juventude”, tendo solicitado à Casterman que, caso fosse reeditada, contivesse um aviso sobre o seu conteúdo. A reedição ocorreria em 1969, limitada a 500 exemplares para assinalar o seu 40.º aniversário. Seria reeditada novamente em 1973, em parte por a editora querer fazer face às edições falsificadas vendidas por altos preços, devido a ter-se tornado uma obra de culto. A edição com o facsimile original ocorreria em 1981.

Por esta altura, o traço de Hergé era muito mais grosso e dado a variações, com vinhetas maiores que as futuras e balões que vão mudando de forma e figura ao longo das páginas mas, ainda assim, o mito Tintin começou, ainda que por linhas bem tortas, a ser aqui desenhado.

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Em “Tintin no Congo”, Tintin parte rumo a África com Milou, que parece passar toda a história às avessas com animais, sejam de que espécie forem – “Os muitos azares de Milu” seria um outro título possível.

A chegada de Tintin a África está ao nível da de um chefe de estado, e até os meios de comunicação internacional disputam Tintin e as suas reportagens no território, acenando com ofertas milionárias.

Um livro onde Tintin se mostra, qual Indiana Jones, um mestre do improviso, seja lidando com um desaparecimento por encomenda, a ferocidade de animais selvagens ou uma aliança improvável entre um feiticeiro e um ladrão de carros – e mais qualquer coisa -, num volume onde se nota um certo ar de complacência colonialista. A verdade é que, já longe, Tintin deixa saudades junto da tribo dos Babaoro´m.

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A fechar este primeiro integral temos “Tintin na América”, que nos transporta até Chicago, onde descobrimos um Al Capone preocupado com as investigações de Tintin, lançando desde logo o repto à cosa nostra: “Tintin não pode ficar um único dia em Chicago”.

Depois de escapar de boa, Tintin move a caça ao chefe de bando Bobby Smiles, que o levará a território índio, onde irá mostrar-nos o seu pouco jeito para a montada. Um livro onde Hergé faz uso da crítica social e política, falando da expropriação dos índios que tiveram de abandonar as suas terras em nome do imperialismo americano. As aventuras do grande repórter prosseguem no Integral 2, com saída prevista para o primeiro trimestre deste ano.

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Pedro Miguel Silva

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