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Entrevista: Ricardo C. Dias

Por Isabel Daires · Em 25/06/2025

Janeiro de 2025 assistiu à revelação de um notável talento literário, com a publicação de “O Despertar do Caos” (ler crítica), o início de uma saga de fantasia épica que concretiza o desejo de Ricardo C. Dias de colocar uma parte de si nos imaginários dos autores que admira e que o “ensinaram a sonhar”.

Se “o sonho comanda a vida”, como escrevia António Gedeão, é inegável que a literatura em geral – e a fantástica em particular – detêm um potencial enorme para a reflexão crítica sobre o mundo em que vivemos. Esse foi precisamente um dos temas da presente entrevista ao autor, na qual também é anunciada uma parte do que poderemos encontrar no segundo volume da trilogia – já concluído, entregue à editora e alvo de grandes expectativas.

Numa das badanas de “O Despertar do Caos”, lemos que a escrita deste livro foi a concretização de um sonho de infância: “escrever o romance de fantasia que gostaria de ler”. O que sente que conseguiu alcançar com esta estreia literária, que ainda não lhe tinha sido proporcionado pelas fontes de inspiração que cita (Rothfuss, Abercrombie, Sanderson)?

Os sentimentos são vários, tumultuosos e difíceis de descrever, mas destacaria sobretudo dois. O primeiro é de realização pessoal (o tal ‘sonho de menino’, de que já falava esse grande filosofo da música romântica portuguesa), por ter conseguido criar algo que tem parte de mim (e que queria sair) e que não existiria de outra forma, somado à satisfação de saber que há outras pessoas que poderão tirar prazer disso. O segundo é uma vontade animalesca de dar continuidade a esta estória, e de explorar estes personagens e este mundo que agora já não são só meus. De uma forma especial, isso serviu para me aproximar dessas minhas referências e fontes de inspiração. Não foi tanto tentar encontrar algo que ainda não me tivesse sido proporcionado pelas obras de autores como Rothfuss, Abercrombie ou Sanderson, mas de colocar nesses imaginários uma parte de mim, numa ode à forma como esses autores me ensinaram a sonhar.

Do leque diversificado de personagens que nos apresenta, alguma foi baseada numa pessoa real?

Todas elas misturam traços meus e de outras pessoas que conheço – ou que fui conhecendo ao longo da vida -, embora que mesclados e caricaturados para originar algo novo. O Pepper, em particular, tem muito de mim (não é por acaso que acaba sempre metido em sarilhos!). Claro que há também os arquétipos da fantasia: o nortenho bárbaro, o ladrão deprimido, a quest de vingança… Tudo isso serviu para pensar personalidades e forças de carácter que geram logo identificação por parte dos leitores do género. Foi uma misturada e, sem dúvida, a parte mais desafiante. Não é nada fácil criar personagens marcantes e “tridimensionais”, como se costuma dizer. Mas, ao mesmo tempo, foi um prazer fazê-lo. É muito gratificante ver uma imagem na tua mente ganhar vida própria, tornando-se algo de novo. Agora só gostava que deixassem de me sussurrar ao ouvido…

Um elemento importante da intriga é “uma profecia que diz que um novo rei surgirá para lutar pela justiça quando o mundo estiver novamente ameaçado pelo caos”. Pensando no D. Sebastião, ou no Rei Artur, entre outros, parece-nos óbvia a inspiração na História humana. Considera que este tipo de crença num salvador predestinado tem mais de positivo (pela esperança que dá) ou de negativo (por o indivíduo comum delegar a acção num outro)?

Sem dúvida que a profecia é um elemento dual, quer na relação humana com os mitos fundadores, quer na forma como é usada na fantasia como ‘trope’. Por um lado, revela essa ligação entre passado e futuro, veiculando esperança ao presente; por outro, tem intrínseco algo de pré-determinado, que retira parte do livre-arbítrio, não só àquele que poderá eventualmente vir a realizar a profecia mas, em parte, a todos os outros que aguardam que esta se realize, confiando que esse alguém lhes trará alguma espécie de salvação. Tentei que essa ambivalência estivesse presente de múltiplas formas no meu livro, seja na relação com deuses e um passado longínquo, seja pela relação com um “salvador” que virá em tempos de maior necessidade (podia, de facto, ter feito referência ao seu cavalo branco) – ou de todos os que conspiram para boicotar a profecia. Pena que esses não percebam que, ao fazê-lo, estão justamente a alimentá-la.

É interessante a maneira como a narrativa mostra que várias versões de uma história antiga se desdobraram em crenças diferentes. E encontramos também a personagem de um líder religioso que incentiva uma guerra para servir os seus interesses. Trata-se de uma crítica ao poder da religião? Em que medida a sua formação em Sociologia e o Doutoramento em Estudos Políticos e Humanitários contribuíram para o desenvolvimento destas perspectivas?

Acho que a fantasia, enquanto género literário, tal como a literatura em geral, deve ter sempre, e de alguma forma, esse papel crítico e reflexivo sobre o mundo em que vivemos. Claro que a minha formação teve algum peso, mesmo que de forma inconsciente. Não é nada contra a religião em particular, mas contra a moralidade corrompida na qual algumas instituições se radicam para controlar, dominar e manter o seu poder. A minha crítica é sobretudo à noção de poder, especificamente à de poder discricionário e ao caos que isso gera nas suas diversas formas (injustiça, pobreza, guerras, etc.). Há uma moral intrínseca a todas as estórias que nos contam e que contamos a nós próprios e aos outros — um fim para o qual uma estória é só um meio. Em todas elas estão presentes relações de poder, muitas vezes justificadas pela ideia de ordem, ou outras aparentemente benignas quando, na verdade, grande parte das vezes são só uma justificação para interesses mesquinhos de pequenas elites ou até de certos indivíduos. Na minha vida fui-me confrontando com isso, e esse sentimento de injustiça antecedeu a minha formação, porventura condicionando mesmo a sua escolha. É pois natural que esteja vertida na minha escrita.

Uma das personagens principais é membro de uma irmandade de mulheres que salvam outras de homens cruéis e as treinam para se vingarem. Partindo do princípio de que não podemos aqui defender a transposição dessa linha de acção para o nosso mundo, como pensa que que deve ser combatida a violência sistémica contra as mulheres?

Penso que já percorremos um longo caminho nesse sentido, e que um longo caminho ainda há a fazer para que tal deixe de ser uma realidade. Infelizmente, as conquistas do feminismo não se generalizaram de igual forma por todas as partes do mundo. Essa é uma luta que tem de continuar a ser travada, mas penso que a via do radicalismo nem sempre é a melhor solução. Temos, sobretudo, de cuidar desta ideia de ‘humano’ e de tudo o que ela encerra, mitigando a dicotomia “nós” e os “outros”. E há formas pacificas de o fazer, transmitindo, em si mesmas, os ideais que precisamos/devemos assimilar. Igualdade na diferença seria o meu lema de acção, não só na questão da violência de género como contra todas as minorias.

Existem neste livro vários pormenores que nos levam a imaginar uma adaptação a um videojogo: há classes de sacerdotes com cores associadas, há artefactos com poderes especiais que são procurados e recolhidos por facções opostas… Pensou nisto enquanto escrevia? Já recebeu alguma proposta de adaptação do livro a um videojogo (ou, já agora, a algum outro tipo de produção audiovisual)?

Quem me dera! Acordo todos os dias com essa esperança, mas para já sinto-me feliz de cada vez que alguém me contacta para dizer que leu o meu livro e que gostou. Quando o escrevi não pensei especificamente numa adaptação, ainda que concordo que o resultado é bastante versátil para outros formatos. Quem sabe um dia!

Já tem o resto da saga planeada, ou ela é desenvolvida à medida que escreve?

Mais ou menos. Usando aqui esta analogia do Martin, tenho mais de ‘jardineiro’ do que de ‘arquitecto’. Em todo o caso, “A Espada da Justiça” (ficam já a saber o título), o segundo volume da saga, está terminado e nas mãos da Saída de Emergência. Gostava muito que fosse publicado, mas compreendo que dependerá do sucesso do primeiro. O terceiro e último livro (sim, isto está pensando para ser uma trilogia à moda antiga) já tem título provisório, e tenho uma vaga ideia de como poderá terminar. No entanto, só à medida que o escrever irei perceber se será esse o caminho ou se um outro rumo levará a melhor. Depende muito do que os leitores e os personagens pedirem. Sou meramente um escravo de todos eles.

A acção deste primeiro volume d’“As Crónicas dos Três Cantos” centra-se no Norte. Veremos em breve o Sul, ou outro ponto geográfico deste mundo? O que pode adiantar-nos acerca do próximo volume?

Oh, sim! Esse foi um desafio que lancei a mim próprio: expandir as outras regiões desse mundo. Em “A Espada da Justiça”, Pepper vai para Sul e a sua trama passa-se em Caladur. Conhecemos aí também uma personagem nova, Samira, que é uma entalpista no Instituto, o que nos dá uma visão mais próxima da Ordem e de toda uma cultura diferente. O mesmo se aplica a Melurian, que é enviada para a Zirmânia, com a missão de salvar uma mulher na corte do Arki Rá. Cada um destes locais são muito diferentes do Norte, ainda que os seus mitos se cruzem.

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Isabel Daires

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