Era um de poucos casos de sobreposições que o cartaz do Primavera Sound Porto tinha reservado, ao estilo de um problema matemático, que obrigava a uma decisão difícil feita de calculadora na mão. Com cinco minutos de intervalo, era preciso escolher entre JADE, a IT Girl das pistas de dança, e Sudan Archives, vinda de um planeta em ascensão do universo afro-futurista. O plano era mais ou menos este: ficar para o início do concerto de JADE, esticar talvez a coisa até meio e assistir depois ao segundo fôlego de Sudan Archives. Um plano que acabou por ir por água abaixo, culpa – ou melhor, mérito – total para JADE que, imagine-se, assinou um senhor concerto – para nós, um dos melhores desta edição.

“That´s Showbiz Baby!”, disco de estreia lançado em 2025 – no seu formato completo, depois de um ameaço em 2024 -, sente-se como uma celebração da cultura pop e do seu lado mais teatral, mas também como um manifesto contra a indústria musical, sentimento que a levou a deixar a segurança e o sucesso intergaláctico das Little Mix para embarcar numa sempre arriscada carreira a solo.
Em palco, JADE surge acompanhada por uma banda e dois dançarinos, com tanto de contenção como de arrojo, conseguindo criar uma química com o público logo após o inaugural “IT Girl”. “É um sonho tocar no Primavera. Obrigado pelos cartazes. Penso sempre se vai estar alguém a ver. Ouviram o meu novo disco?”.

Novo disco que chegou em formato deluxe, e que ao vivo ganha uma dimensão mais corporal e festiva, como se passássemos da sala de estar para a pista de dança. Um concerto que se viria a transformar numa autêntica house calamity, ou um episódio de Fame gravado ao vivo onde todos puderam fazer parte do casting. “Se não conhecerem finjam que conhecem”, brinca a cantora britânica, arranjando tempo para o elogio da praxe – “Portugal é lindo!” -, esticar o dedo do meio aos haters – “Espero que não estejam cá hoje…” -, simular um telefonema em directo ou, não menos importante, relembrar um passado que fez boa mossa em muito teenager nas imediações do palco: “Tive uma banda. Uma das maiores do mundo. Adorei fazer parte dela, e achei que faria sentido fazer-lhe uma homenagem esta noite. Eu sei que conhecem as palavras”.

Já com a portuguesa desfraldada, JADE parte para um mash up onde couberam uma mão-cheia de temas das Little Mix, falando do concerto do Porto como um dos preferidos de sempre. “Não quero que esta noite acabe. Mas só tenho uma cancão. Obrigado pelo apoio. Nunca irei esquecer esta noite. É uma canção sobre a minha relação tóxica com a indústria musical. Quero cantá-la toda a minha vida”. Uma canção que dá pelo nome de “Angel Of My Dreams”, o tema de abertura do disco, um banger com mais velocidades que as de uma caixa de mudanças de um F1.

JADE tem o jogo de pés de uma Dua Lipa e a vertigem house dos temas mais incendiários de RAYE, acrescentando-lhe a capacidade de sacar, da feira de velharias pop, artigos de luxo, num som que é, para quem gosta de boa electropop, um verdadeiro achado. That’s Showbiz Baby? Podem crer que sim.

From Los Angeles, California… não, não são os The Doors. Antes os The Sophs, o sexteto indie liderado pelo peculiar Ethan Ramon, que trouxeram ao Primavera Sound Porto o seu variado sortido musical, onde tanto descobrimos uma música de temática saloon como “Sweetiepie”, uma pérola pop que arranca com um dedilhar a la nuestros hermanos – “Goldstar”, tema homónimo do mais recente longa-duração – ou uma falsa e triste balada em que “The Dog Dies In The End”. Tudo com letras marcadas pela ambiguidade, com um narrador com tanto de cruel como de honesto, mostrando despojadamente os seus defeitos – se fosse uma pessoa de verdade, este narrador seria provavelmente Matty Healy, dos The 1975 – muitas vezes entre qualquer coisa como stand up poetry ou slam poetry.

Há tempo ainda para um cover caótico e irrepreensível de “For The First Time”, um original de Mac DeMarco, que fecha com requinte indie um bom concerto que terá passado ao lado de muitos. Nada que um concerto em nome próprio não resolva.

Começámos com algumas canções dos Yard Act, mas o bichinho da curiosidade mordeu e com força, obrigando a uma viagem de longo curso para assistir a parte do concerto de Duquesa. A primeira coisa que ouvimos é “está um calor do caralho”, fazendo referências às fake news meteorológicas que haviam avançado um clima fresquinho para a Invicta. Com uma galera no ponto e uma dj com toque de Midas, Duquesa brindou-nos com um set que mistura rap, trap, R&B e pop, mas também humor bombástico e letras cuspidas com muito empoderamento feminino. Made in Bahia, made in Brasil. Esta Duquesa merece o trono.

Fomos apanhados por aquela hora em que o corpo pede comida, mas ainda deu para espreitar parte do concerto de Criolo, Amaro e Dino, uma viagem por vários continentes musicais feita de emoção, intimidade e discursos de amor eterno. E alguma improvisação, como deve ser. Se a música serve para fazer amigos? Claro que sim – e talvez seja esse um dos seus maiores feitos.

Apenas espreitámos as primeiras canções, tudo para que não tivéssemos de ver os Massive Attack de binóculos, mas gostámos muito da encenação e da performance das Smerz, com um cenário sóbrio pautado por jogos de cortinas – mas sem aquela obscuridade de um bar de alterne. Há qualquer coisa de etéreo e maravilhoso na música desta dupla que veio de frio.

Em 2024, quando os Massive Attack passaram pelo Meo Kalorama, escrevemos por aqui estas linhas, numa reportagem que teve como título “It’s the end of the world as Massive Attack know it”: “Poderá uma banda não gravar um disco de originais há 14 anos e, ainda assim, manter intacta toda a sua relevância? Se essa banda for os Massive Attack, então pode. Com várias passagens por Portugal, este concerto no Meo Kalorama pode bem ter sido o mais emotivo, uma súmula da música de intervenção destes britânicos – ou melhor, da dupla Robert Del Naja (“3D”) e Grant Marshall (“Daddy G”), bem acompanhados por Horace Andy, Elisabeth Fraser e Deborah Miller – a que se juntou um olhar crítico sobre o genocídio da Palestina, um salto à Ucrânia ou um mergulho de cabeça na futilidade moderna. “Eu queria mesmo ser eu, percebes?”. Foi a partir desta ideia, expressa num excerto de um vídeo a preto e branco, que o manifesto político arrancou, com o capitão Robert Del Naja a envergar uma braçadeira onde se lia a palavra “Palestina” – isso mesmo, em português. As questões existenciais foram muitas neste concerto, que é qualquer coisa como enrolar um charro em formato king size e depois não ter ninguém com que partilhá-lo: “What is the essence of beauty? Can silence have a sound? Is this a dream? Can I experience any wonder?””.

Linhas que serviriam, quase por inteiro, para ilustrar o concerto no Primavera Sound Porto, tendo desde então sido acrescentados novos actores políticos, causas e imagens. Um concerto de intervenção um pouco menos vibrante que o de Lisboa de há dois anos, com as imagens a receber, intencionalmente, a maior fatia de protagonismo. A mensagem urgente e necessária passou e bem, cabendo à música servir de banda sonora a um filme bem maior, dedicado a mostrar-nos o fim do mundo como ainda não o conhecemos. Nunca o conceito de instalação artística esteve tão perto de um concerto de música.
Notas (Quase) Finais
Ainda temos muito para mostrar sobre este Primavera Sound Porto 2026, desde uma entrevista com os Nation of Language, um inquérito de rua sobre que bandas devem figurar no cartaz de 2027 ou galerias fotográficas de perder de vista, mas desde já ficam duas breves e necessárias notas:
– A zona VIP junto ao palco principal está um abuso, trazendo a debate a luta de classes no acesso à música.
– A mudança da cerveja oficial do Primavera foi um atentado ao bom paladar. Por aqui reduzimos drasticamente o consumo e, muitas vezes, foi a água a dar-nos a maior das alegrias. A máxima patriótica, neste campo, é verdade absoluta: o que é nacional é bom.
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Fotos: © Hugo Lima | www.hugolima.com | www.instagram.com/hugolimaphoto











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