Foi, dos 3+1 dias de Primavera Sound Porto, aquele que esgotou, levando a uma corrida aos passes gerais que acabaram também por se esfumar. O motivo para tamanha loucura dava pelo nome de Gorillaz, a banda criada em 1998 pelo músico Damon Albarn (vocalista dos Blur, entre 1001 outros projectos) e o cartoonista e artista visual Jamie Hewlett, formada por quatro membros fictícios que, tal como nos heterónimos de Fernando Pessoa, tinham atrás deles uma história fictícia de corpo inteiro: 2-D (vocal e teclados), Murdoc Niccals (baixo), Russel Hobbs (bateria) e Noodle (guitarra e teclados).

Num recinto (demasiado) apinhado, a entrada em cena dos Gorillaz – na sua versão alargada de concerto – quase parecia a de uma selecção a pisar o palco do Mundial, recebida em festa por quem acreditava que a Taça já era nossa. O aplauso maior surge com a aparição de Damon Albarn, com um visual a fazer lembrar Seu Jorge em “Um Peixe Fora de Água”, esse belíssimo e comovente filme de Wes Anderson.
A festa começa ao som de “The Mountain”, tema que dá título ao novo trabalho dos Gorillaz. Um disco atravessado pela perda, o luto e a crença, criado durante a morte de ambos os pais de Albarn e Hewllet, que foi gravado em vários locais do mundo – Londres, Devon, Ashgabat, Damasco, Los Angeles, Miami e Nova Iorque -, com destaque para as sessões que tiveram lugar na Índia. Um longa-duração que, ao vivo, ganha ainda mais intensidade.

Para além da selecção de músicos que acompanham Damon Albarn nesta tour, vocalistas, uma secção de sopros e cordas ou um senhor coro gospel, o concerto do Porto contou com aparições de luxo: como Yasiin Bey (anteriormente conhecido como Mos Def), Joe Talbot (vocalista dos IDLES) e a incendiária Moonchild Sanelly – que havia participado em “Song Machine, Season One: Strange Times” com o tema “With Love To An Ex”.
O concerto do Primavera Sound Porto é um daqueles que se vai guardar para sempre, uma festa de celebração da vida, dos amigos que temos e daqueles que já partiram, mas também da música como algo que sempre nos aproximará, cada um subindo a sua própria montanha, tratando de fazer valer esta curta viagem terrena.

Destaque para o lado conceptual do espectáculo, entre projecções do quarteto ilustrado – e ilustre -, imagens de músicos e artistas que a dado momento fizeram parte da instituição Gorillaz – com homenagens a Dennis Hopper, Dave “Trugoy” Jolicoeur (dos De La Soul) ou Asha Bosle – e da própria realização do espectáculo, acompanhando de forma certeira a descida de Albarn às grades, lugar de onde regressou com uma bandeira, assinou uma T-Shirt ou aproveitou para desejar os parabéns a quem o decidiu partilhar num cartaz.

Depois do épico fecho com “Clint Eastwood”, e já com o palco deserto, soa nas colunas “My Melancholy Baby”, tema imortalizado por Ella Fitzgerald, que começa com estas linhas: “Why do you grieve? Try and believe. Life is always sunshine”. Com os Gorillaz, apanhámos vitamina D para o resto do ano.

Se existe poesia no ruído, beleza pura no caos, os Slowdive são a banda sonora a abraçar. Em Física, trata-se do equivalente a uma experiência em ambiente controlado, com guitarras que continuam a arranhar como dantes e um baixo que, sem quase ninguém dar por isso, vai servindo de fio condutor, embalo para uma explosão de serotonina. No Porto, os Slowdive ofereceram-nos uma viagem aos tempos em que o shoegaze era o género preferido de muito boa gente, num fim de tarde ruidosamente abençoado. Que as novas gerações não os esqueçam.

“Who’s the bad bitch in this club?”, perguntavam Joey Valence & Brae já depois das duas da manhã, uma questão de fácil resposta àquela hora: somos todos, malta. Ao longo de uma hora, a dupla mostrou que na arte de dar uma festa são reis, provando aos mais descrentes que a sua música é muito mais do que um reciclar dos Beastie Boys. Com eles, o rap pula fronteiras e atravessa dimensões, dando um pulinho à pista de dança pela mão de Skrillex ou transformando, com muita classe, o tema “Security” – de Amyl and the Sniffers – numa viagem com muito baixo, sintetizadores e um rasgo punk a piscar o olho à bola de espelhos.

Dá-se uma palavra especial a quem veio sozinho, relembram-se os “piece of shit boyfriends and girlfriends” que já tivemos e, sobretudo, transforma-se um concerto numa festa desenfreada, tratando de lembrar que, depois do moshe, é preciso olhar em volta a ver se alguém precisa de ajuda para se voltar a pôr de pé. Depois disto, já assinámos os papéis para dar entrada no Hooligang de JVB.
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Fotos: © Hugo Lima | www.hugolima.com | www.instagram.com/hugolimaphoto











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