É, no concorrido mundo dos festivais de música, um dos melhores cartazes a ser servido nos últimos anos, numa mistura perfeita entre nomes consagrados e valores emergentes. Numa edição que promete muita correria entre palcos, escolhemos 10 concertos a não perder neste Primavera Sound Porto 2026.
Era um dos regressos mais esperados, sonhados e manifestados. Depois da edição de “I See You” (2017), os The xx entraram numa era sabática sem termo, dedicados a projectos solitários onde Jamie Smith – Jamie xx – foi rei, Romy Madley Croft foi princesa – tem nome para começar uma dinastia – e Oliver Sim quase um bobo da corte. Chegam ao Porto depois de elogiados concertos no México, Brasil e no norte-americano Coachella, esperando-se um passeio em modo best of de uma banda que foi ao baú da música, cruzou gerações e influências e inventou uma pop minimalista de combustão lenta, tão (aparentemente) simples que muitos se perguntaram: como é que nunca ninguém se lembrou disto antes? Por aqui já estamos com pele de galinha.
Mo Chara, Móglaí Bap e DJ Próvaí, o trio de uma banda chamada KNEECAP, escolheram o rap como o meio para a sublevação política – com eles, a música é mesmo uma arma -, defendendo a reunificação da Irlanda criticando severamente o domínio britânico, condenando a brutalidade policial, criticando as políticas de direita ou manifestando o seu forte apoio à causa palestiniana – o que os tem colocado no centro de debates globais e tensões com promotores de festivais e políticos. “Fenian”, o mais recente longa-duração – é já um dos discos do ano -, aborda a resistência irlandesa, traça paralelos com o conflito na Palestina e responde aos muitos ataques que sofreram por parte do governo britânico e da polícia. Com ou sem balaclava, este é um daqueles concertos para dar tudo.
Oklou – diz-se OK Lou – conseguiu, com “Choke Enough”, transformar uma caixinha musical numa mini rave. O seu segundo longa-duração foi uma das grandes surpresas de 2025, um disco pop de canções simples capazes de causar dependência. Intrigante e memorável, “Choke Enough” é barroco e nostálgico, uma daquelas rodelas para ouvir em loop como num daqueles sonhos dos quais não queremos acordar. Promete ser bonito.
Não corresponderá propriamente ao modelo clássico de uma nerd, mas a verdade é que “I Love My Computer” parece ser uma rodela saída de uma maluquinha por computadores, um exemplo triunfal e refinado daquilo que se decidiu chamar de hyper pop. Ninajirachi, que tinha apenas 14 anos quando começou a mergulhar no mundo da produção com o programa FL Studio, é rapariga para ser a alma da festa, e promete transformar o Parque da Cidade numa pista de dança. Levem sapatos confortáveis e dancem como se não houvesse amanhã.
Damon Albarn tem uma voz tão, mas tão fixe, que brilharia mesmo se nos cantasse a bula médica, descrevendo sintomas e relembrando todas as contra-indicações. Os Gorillaz, banda primeiramente virtual que teve em Jamie Hewllet o ilustrador de uma banda desenhada de eleição, têm dado cartas com o seu pop-funk abstracto e hip-hop psicadélico, sempre um passo à frente do tempo. “The Mountain”, o 6º álbum de estúdio, foi criado durante a morte de ambos os pais de Albarn e Hewllet, o que acabou por transformá-lo num disco pessoal sobre a perda, o luto e sobre se há algo mais para além da vida terrena. Ainda assim, não lhe faltam bangers para juntar a uma apreciável colecção de hits. Tem tudo para ser o concerto do Primavera Sound Porto 2026.
Para aqueles que, armados em profetas da desgraça, vão declarando ano após ano a morte do rock, aconselha-se vivamente a audição de “Viagr aboys”, o álbum de uma banda que, não escondendo influências de jazz ou funk, continua a fazer do punk um modo de vida – e do rock um estado de alma. Estejam preparados para uma noite de caos e subversão, com letras tão rendilhadas que dariam para tecer um par de tapetes de Arraiolos. Com estes Viagra Boys, prevê-se um banho de cerveja com boas abertas.
Se gostam de Beastie Boys – Mike D vai a jogo, não se esqueçam – e andam à procura de diversão pura, Joey Valence & Brae é bem capaz de ser a vossa praia. A dupla americana, que tem lançado discos aos ritmo de um por ano, consegue transformar um velório num momento festivo, fazendo do hip hop uma linguagem universal.
É certo que não lançam um novo disco desde 2010 – “Heligoland” foi o 5º disco de estúdio -, mas a verdade é que cada concerto dos Massive Attack continua a ser uma experiência única – assim como cada vez que relemos um dos nossos livros preferidos. A banda, que tem em Robert “3D” Del Naja e Grant “Daddy G” Marshall o seu núcleo duro, plantou a semente do que viria a ser o trip-hop, género criado em Bristol e falado por pares como os Portishead ou Tricky. Esperem um concerto político, capaz de olhar para o presente e o futuro com um ponto de interrogação que impele à mudança.
Como se pode ler nas linhas a elas dedicadas no site oficial do Primavera, a música de Amaarae tem “um ritmo funk de favela aqui, uma cadência afrobeat ali, uma frase suave de R&B mais adiante”. “Black Star”, disco lançado em 2025, mostra que o rótulo de “world music” que lhe foi colado durante uns bons anos já era, assentando pé no turbilhão da pop contemporânea. É bem capaz de ser a maior surpresa do festival.
Projecto pessoal de Brittney Parks, o universo afro-futurista de Sudan Archives começou a ser desenhado em 2019 com a rodela “Athena”, tendo no violino o seu ponto aglutinador. “The BPM”, terceiro e mais recente longa-duração, é em grande parte uma homenagem a Chicago e a Detroit, duas das capitais mundiais da música de dança negra, com malhas que convidam a um salto à pista de dança mais próxima. Um concerto a pedir bola de espelhos e, por que não, purpurinas.











Sem Comentários