Sobem os quatro músicos ao palco, tomam posição junto dos seus instrumentos e Kaoru Watanabe verifica (e ajusta) os seus auriculares, quase imperceptíveis. Tomas Fujiwara, líder dos Dream Up, começa a solo, percutindo a bateria com umas baquetas de pontas bem gordas, produzindo um som grave e seco. Ches Smith entra, exprimindo um som lento e límpido. Kweku Sumbry dedilha o seu ngnoni, um cordofone africano ancestral, geralmente feito a partir de uma cabaça ou com a pele de um animal. Kaoru espraia-se com a sua flauta, de timbre assumidamente oriental, debitando uma melodia melancólica, a condizer com a contenção que se faz sentir no ar. Kweku maneja uma floresta de chocalhos.
O som global mantém-nos em suspenso, avançando à cautela por esta autêntica selva de emoções e respectiva tradução sonora, ainda no domínio do desconhecido. As frases curtas e a conjugação de timbres, os padrões repetitivos e hipnotizantes, tudo contribui para a nossa fácil integração neste tapete sonoro, por onde nos fazem avançar.

O anfiteatro da Fundação Calouste Gulbenkian acolhe uma das noites mais concorridas desta edição do Jazz em Agosto – a 42ª -, em noite de pleno e sentido Verão. O concerto será preenchido com temas curtos, estruturas previamente definidas, onde cada um sabe bem o seu papel e a forma de evidenciar a sua voz, sem que isso implique longos solos de cada instrumentista ou algum destaque especial. O equilíbrio entre uma certa faceta de contemplação – talvez mais facilmente associável aos momentos em que a flauta japonesa de Kaoru toma a dianteira -– e a passada larga de marcha em caravana, expressa na relação quase maquinal que articula com naturalidade as quatro percussões, é um dos elementos distintivos da sonoridade dos Dream Up.
Os cenários sonoros são cativantes e metaforizam a viagem, a descoberta, a esperança de galgar territórios por inventar, na (cada vez menor) imensidão do mundo e da Humanidade.
Kaoru mostra-se exímio na execução dos tambores Taiko, de tradição japonesa, transportando na sua música uma herança secular, imponente e marcial, sentida a cada movimento. Todavia, outros momentos há em que a sua calma recorda quase a disciplina das artes marciais, a abolição da tensão, patente em práticas como o Tai Shi.

Por seu lado, Kweku exprime-se também com instrumentos relacionados com as suas origens, como o balafon (um parente do xilofone) ou o já referido ngnoni, apesar de, curiosamente, ser o único que usava um tablet, em vez de papel, na estante de pauta. Contradições e contingências da modernidade.
Ches Smith (músico habituado a actuar com autênticos mestres como John Zorn ou Marc Ribot) mostrou-se igual a si mesmo, embora alinhando num registo mais contido que habitualmente, mas sem ficar para trás, quando a ordem geral era para ganhar balanço.
O tema final foi um magnífico exercício de domínio técnico, um momento de assumida apoteose, com Kaoru a dominar em pleno as variações na flauta, Kweku, dedilhando o seu cordofone tradicional, e Ches Smith a utilizar o arco no vibrafone, permitindo que as vibrações permaneçam longos instantes no ar. Partindo de um ritmo com raízes notoriamente africanas, Kwekw liderou ao início, com Kaoru, mais uma vez, a inserir-se no contexto com a maior das naturalidades, sem abdicar na carga telúrica que o seu som deixa adivinhar. Ches aborda um adequado djembe, acabando por retornar ao vibrafone. Os músicos são agora um único animal de quatro braços, enlaçando o jardim repleto de gente, como quem protege e ilumina numa floresta.

Quando pensamos no formato deste grupo, é quase impossível não recordar o colectivo matricial criado por Max Roach, M’Boom, mas também outras experiências similares, como Pierre Favre Ensemble, ou até mesmo situações conjunturais dos míticos Art Ensemble of Chicago, em que todos ostentavam instrumentos de percussão. Já para não falar do peso desta gama de instrumentos em certos discos de Pharaoh Sanders, no histórico “Africanasia” (de Claude Delcloo e Arthur Jones) ou na orquestra de Sun Ra.
Tomas Fujiwara (n. Boston; 1977), esteve em 2023 neste mesmo festival com o colectivo Amaryllis, de Mary Halvorson, com quem gravou vários registos (colectivo em que também pontuava o contrabaixista Nick Dunston.. que actuara este ano, na noite anterior, novo quarteto de Ches Smith… é notório que se vai consolidando um núcleo duro de músicos que têm trazido diversas formações a este certame). Tem o seu nome em mais de uma centena de discos, como titular ou acompanhante, e o projecto que agora nos traz foi fixado em gravação em 2025.
Kaoru Watanabe, nipo-americano (n. St. Louis; 1975; filho de um violinista e de uma harpista), é flautista, percussionista, director artístico e um espírito artístico aventureiro, como provam as suas colaborações, onde encontramos o realizador Wes Anderson, o bailarino e coreógrafo Mikhail Baryshnikov, Laurie Anderson, o pianista Jason Moran ou o violoncelista Yo-Yo Ma.

Kweku Sumbry começou a estudar música aos quatro anos, com o tio. Percussionista, conhecedor das tradições, é também terapeuta de som (conduzindo acções de relaxamento e reequilíbrio mental, através da música). De Ches Smith, já tudo se disse.
Em suma, um quarteto que se apoia na percussão para cruzar memórias ancestrais de desafiar caminhos, numa lógica de cumplicidade e complementaridade. Este é um daqueles concertos que pode começar por nos fazer questionar os limites do jazz para com, naturalidade, entendermos que o jazz é uma linguagem que se foi mesclando e alimentando com a cumplicidade de toda as outras… e sempre assim será.
Fotos: Petra Cvelbar – Gulbenkian Música











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