O dia de abertura do NOS Alive pode ter sido o menos concorrido, mas acabou por trazer alguns dos melhores concertos desta edição. Escrevemos alguns postais ilustrados e uma carta de amor sobre o dia 9 de Julho.

Há artistas que, ao longo da história da música, se tornaram maiores do que eles próprios, capazes de figurar no panteão dos deuses do Olimpo. David Bowie foi um deles. Nick Cave é um outro, alguém que nos olha com os olhos de um vampiro que trocaria a mordidela no pescoço por um sinal mínimo de conversão. Na companhia dos Bad Seeds – e de um coro que fez do Passeio Marítimo uma igreja gospel -, Cave percorreu no NOS Alive uma boa parte da sua extensa discografia, lugar de criação onde pareceu sempre procurar um significado para a fé longe de qualquer credo ou religião – e até mesmo da própria ideia de um Deus.

Entre muitos agradecimentos e juras de amor, Cave foi tratando de introduzir alguns temas, como “Carnage” – “É uma canção incrivelmente bonita. Como se diz em português? É sobre o Apocalipse, um desastre total” -, “Jubilee Street” – “Esta é uma canção sobre uma rapariga que viveu… e morreu” – “Hollywood” – “uma canção muito longa” – ou, já no encore e de coração enternecido, “Wide Lovely Eyes” – “Esta é dedicada à minha mulher, que está aqui esta noite. É a minha canção favorita dos Bad Seeds porque é sobre ela”.

Warren Ellis, companheiro de Cave nos Bad Seeds – e fora deles – há uma vida, é um mundo à parte, seja qual o instrumento a que se atire, exercendo um magnetismo que nos faz olhar com fascínio e uma devoção que está perto do medo. Toda a atmosfera é convidativa a uma catarse colectiva, a um momento de celebração do que é estar vivo, rodeado por seres que partilham a mesma geografia, os mesmos medos e procuram as mesmas alegrias.

Já com os Bad Seeds e o coro fora de cena, Nick Cave despede-se com “Into My Arms”, uma canção de amor perfeita de um disco superlativo. Mais atrás, enquanto cantava “Papa Won´t Leave You, Henry”, Nick Cave parece elevar-se sobre a plateia, amparado pelos pés, flutuando como quem caminha sobre as águas. Se o quisesse, acreditamos, poderia fazer como Jesus no Mar da Galileia, percorrendo o Tejo até onde as canções o levassem.

Do País de Gales chegaram os The Royston Club – não confundir com The Breakfast Club -, que por vezes soam como se os Arctic Monkeys tivessem decidido animar as festas da cidade (uma qualquer) – ou, noutros momentos, aos Strokes, mas com a dicção de quem anda a tirar uma pós-graduação em Literatura Inglesa ou Galesa. Tom Faithfull, o vocalista – e guitarrista -, surgiu ao estilo The Dare, naquela fase do casamento em que já vale tirar a gravata, desfraldar a camisa e aliviar esta última dos dois botões de cima, mantendo os óculos de sol como medida preventiva de uma ressaca danada. Depois de mostrar apreço pelos pacotes gigantes de doritos que circulavam pelo recinto, Tom acabou sozinho em palco para rematar “Cariad”, o maior dos clássicos da banda.

Para quem olha para o indie rock britânico como um catecismo, este primeiro concerto dos The Royston Club em Portugal foi um mimo, com canções que merecem ser cantadas com a confiança de quem arrasa no karaoke. Ficou caminho aberto para um concerto em nome próprio.

O que é, afinal, um círculo? Na geometria, fala-se de uma “figura plana formada pela união de uma circunferência e de todos os pontos localizados no seu interior”, mas a verdade é que Maynard James Keenan, vocalista dos A Perfect Circle – e cérebro de um empreendimento intergaláctico chamado Tool -, tem outra ideia, capaz de transformar uma conversa sobre um logotipo numa discussão profunda à qual não faltam teorias – seja sobre representar duas luas, dois círculos perfeitos ou de reflectir a invisibilidade do que é aparentemente visível.

Na presença de 24 círculos e 24 barras luminosas, representando (arrisque-se) os 24 pontos cardinais de um dia terrestre, Maynard conduziu as operações do alto de um palanque, com aquela inquietação de quem vai discursar no Speaker´s Corner – jardim num cantinho do londrino Hyde Park – mas não consegue encontrar, nos muitos bolsos, o papel onde escreveu o discurso. O som dos A Perfect Circle parece estar um passo à frente do tempo, é um pouco como se os Alice in Chains, num universo paralelo, se tivessem dedicado à música clássica. Cinquenta minutos de pura contemplação, num concerto que poderia ser pendurado como peça de arte num museu. Pede-se um regresso, desta vez em horário nocturno.

Eram a banda mais desejada neste dia de abertura, e a verdade é que os Twenty One Pilots estiveram à altura dos seus melhores pergaminhos, num concerto que foi uma descarga de adrenalina ao nível de um Mad Max exibido em IMAX – e com pipocas a acompanhar. A dupla Tyler Joseph e Josh Dun esteve imparável, numa actuação que foi coleccionando momentos Polaroid, desde logo com a entrada explosiva de Tyler, envergando uma máscara ao estilo Kneecap, que tira no final de “The Contract”, soltando um sorriso para as câmaras.

Os norte-americanos ofereceram um desfile de bangers onde, num palco que a certa altura ganhou a dimensão de um altar em chamas, aconteceu um pouco de tudo: a participação do segurança Rui em “Drive”; a exibição em vídeo de um statement de Jack White, autorizando a banda a brindar-nos com a sua fantástica versão de “Seven Nation Army”; o momento em que Tyler muda das botas de combate para uns ténis confortáveis; a exibição de um vídeo com imagens recolhidas durante a tarde no NOS Alive, mostrando a corrida às grades ou as elaboradas indumentárias.

Fora de palco, para além dos temas em que a dupla tocou em plataformas circulares sustentadas pelos fãs, destaque para o momento em que Josh Dun, fintando todas as normas de segurança, escalou uma torre lateral, onde no topo o esperava uma bateria, cenário vertiginoso onde partiu para uma suada versão de “Drum Show”. Quem precisa de 21 pilotos quando se pode levantar vôo com apenas dois?

“Uma aventura num lugar seguro, onde todos são bem-vindos”. Foi neste lugar que os Tomora, projecto formado por Aurora e Tom Rowlands (uma das caras-metade dos Chemical Brothers), aterraram a sua nave espacial, contando com a companhia da “talentosa companheira” – também ela alienígena – Amalie Holt Kleive, música e performer.

Com Rowlands no anonimato dos comandos, Aurora e partenaire deram corpo a “Come Closer”, disco de estreia lançado este ano, num concerto que teve o ar de um Cabaret exótico: há botas felpudas, luvas de braço inteiro, cones de estrada cor-de-rosa a fazer a vez de microfones, passes de dança que não estão nos melhores manuais. Um concerto que teve o fascínio de um circo de acrobatas, com a reconfortante estranheza que se pedia aquela hora.
—
Fotos:
Matilde Fieschi (Nick Cave and The Bad Seeds / Tomora)
Arlindo Camacho (The Royston Club / Twenty One Pilots)
Sarah Hawkkk (A Perfect Circle)
Duarte Salgueiro (Twenty One Pilots – foto ambiente)
Promotora: Everything is New











Sem Comentários