Foi de uma selva semi-tropical que veio o melhor concerto de dia 10 de Junho do NOS Alive, mostrando que os suecos sabem muito mais do que apenas escrever policiais, construir móveis difíceis de montar ou cozinhar almôndegas. Ficam alguns postais e uma carta de amor sobre o segundo dia do festival.

Foi ao som de “Vem Dançar Kuduro”, esse épico do kuduro protagonizado por Don Omar e Lucenzo, que surgiram nos ecrãs as primeiras imagens de Zara Larsson e companhia, momentos antes de subirem e tomarem de assalto o Palco Heineken naquele que foi, dizemos nós, o melhor concerto do dia do meio do NOS Alive.

Num palco decorado como uma selva semi-tropical com vista para uma imaginária Praia de Algés, Zara Larsson fez-se acompanhar por uma senhora banda – bateria, teclas, baixo e guitarra -, fintando as más-línguas e os velhos do Restelo que, em antecipação, diziam que seria apenas Zara Larsson e beats pré-gravados. A juntar a isto, seis dançarinas compunham com Larsson um septeto de luxo, galvanizando uma plateia (sobretudo) adolescente que parecia conhecer as letras de uma ponta à outra.

Não faltaram momentos Polaroid, como a entrada de Zara e penduras a bordo de um carro com a matrícula Puss Puss 97 – frase do banger “Hot & Sexy” -, a espargata de quem parece estar a treinar para os Olímpicos, a apresentação da banda e dançarinas com um lettering bem catita, a paragem numa estação de serviço para uma saída a bordo de um aeroplane – “Stateside” – ou, já com o sol bem alto, o protector posto e a toalha estendida, viver o melhor “Eurosummer” com que podemos sonhar – ainda que aquele acordeão a la Quim Barreiros não se tenha feito ouvir com a mesma vertigem do disco.

A certo momento, Larsson diz que “se não me seguissem há tanto tempo, nada disto aconteceria”, servindo, quase na despedida, “Uncover”, que continua a considerar, dez anos depois da sua primeira vida, “uma das minhas melhores canções”. Há ainda minutos para ler alguns dos muitos cartazes desenhados pelos fãs, ou para receber em palco um fã, Afonso de seu nome, que simplesmente arrasou na dança de “Lush Life”. Camilla Lackberg pode bem ser a rainha do policial sueco, mas o thriller nórdico do momento dá pelo nome de “Midnight Summer”.

De Monterrey, México, chegaram as The Warning, um power trio constituído pelo triunvirato bateria, baixo e guitarra. Os riffs têm o peso de uma bigorna, mas a sensação que fica é a de não existirem refrões memoráveis, que permaneçam na memória após o desaparecimento das vibrações. Competência e entrega não lhes falta e, da setlist desenhada para o NOS Alive, foram as músicas cantadas na língua nativa as que apresentaram mais nervo.

Coube aos Palaye Royale um dos concertos mais conseguidos desta edição, algures entre uma peça teatral de época, um acto de comédia e uma ida à praia, transformando o Palco Heineken num lugar de celebração. A entrada fez-se ao som de “Break On Through”, dos The Doors, banda com quem partilham a mesma geografia: Los Angeles, Califórnia.

Alimentados a soro pelo trio de irmãos Remington Leith (vocais) – de tronco nu, cabelo ao estilo Cruela e tatuagens de uma vida inteira -, Sebastian Danzig (guitarra) – com o estilo de um Brett Anderson na sua fase mais glam – e Emerson Barrett (bateria e piano) – que usava uma camisa preta às bolas brancas que faria o furor em qualquer festa -, os Palaye Royale tiveram o mérito de sintonizar a atenção de uma plateia que, em boa parte, nunca deles teria ouvido mais do que uma malha. Houve momentos de moshpit, descidas – muitas – à grade, pistolas de água disparadas com a competência de um Lucky Luke, pedidos para subidas às cavalitas, balões brancos gigantes atirados para o público e até um barco de borracha com desejo de crowdsurf. Fes-tão!

Foi preciso esperar até “Yuk Fo”, a décima música da setlist, para que os Wolf Alice – autores de um dos grandes discos de 2025 – conseguissem arrancar do público algum vislumbre de reacção, ocupado então com conversas paralelas na sua longa espera até à entrada em cena dos Foo Fighters. A banda, conduzida pela magnética Ellie Roswell, tentou vários truques e mudanças de ritmo, mas nunca conseguiu estabelecer uma química para além de uns isolados fogachos. Provavelmente a história teria sido diferente no palco secundário mas, mesmo que atingidos pela frustração, por aqui prometemos ser fiéis ao pedido de Ellie e companhia: don´t delete the kisses.

Não faltaram juras de amor no concerto dos Foo Fighters que, a dado momento, só parecia ir terminar quando alguém tropeçasse no fio que alimentava a corrente eléctrica do NOS Alive. Dave Grohl, o maestro deste empreendimento rock de longa data, actuou com a descontraccão de quem anda de chinelos no estúdio de ensaios ou na sala de estar, transformando de alguma forma um concerto de 50 mil almas – ou por aí – num momento de alguma intimidade.

Os êxitos foram sendo servidos sem qualquer parcimónia, mas por aqui destacamos dois momentos: primeiro, quando Grohl falou dos Nirvana, devolvendo um “não fiquem tão entusiasmados” perante a fervorosa reacção. É certo que não fomos brindados com um “Smells Like Teen Spirit” ou um outro hino mais conhecido do cancioneiro Nirvânico, mas ouvir “Marigold”, tema escrito por Grohl – editado primeiramente sob o pseudónimo de Late! – que acabou por ser incluído como lado-B de “Heart Shapped Box”, fez bater aquela nostalgia; outro momento foi quando Dave Grohl e companhia decidiram dar-nos uma “lição de História”, com cada membro dos Foo Fighters a chegar-se à frente – quase sempre no microfone – para protagonizar um tema da banda onde estavam antes da entrada nos Foo – chegou mesmo a haver uma troca entre o baterista e Grohl, que voltou a pegar nas baquetas. Tudo isto enquanto, no ecrã, iam correndo vídeos e fotografias daquilo que parece agora ser uma outra vida. Nostalgias à parte, um grande – literal e de forma adjectivada – concerto.

Entre o never ending concert dos Foo Fighters e um festão chamado Zara Larsson, fomos espreitar o início do set da dupla Digitalism, saindo da pista de dança apenas porque um ideal sueco falava mais alto. A caminho do Heineken só pensávamos, estes tipos são demasiado bons, não se arranja um concerto ou ou djset em nome próprio?
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Fotos:
Hugo Macedo (Zara Larsson)
Arlindo Camacho (Wolf Alice)
Sarahawkkk (Foo Fighters)
Tomicornio (Digialism, Palaye Royale)
Nuno Cruz (The Warning)
Promotora: Everything is New











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