Não era difícil perceber quem era a cabeça de cartaz do dia do meio do MEO Kalorama, tal não era a quantidade de T-Shirts que se passeavam pelo Parque da Bela Vista com a cara de Ms. Lauryn Hill. Um concerto que decorreu no momento em que se assinalam 30 anos de Fugees, e que acabou por ter os seus momentos de estranheza. Mais concretamente, a parte do guião entregue aos convidados, que tanto nos trouxeram o espírito do Sumol Summer Fest, muitas vezes com efeitos a la Strokes 2026 – com o reggae de Zion e YG Marley – , como hits que passariam na boa numa sexta à noite num bar do Cais do Sodré – casos de “Mi Gente”, de J Balvin, ou “Hips Don´t Lie”, de Shakira, trazidos por Wyclef Jean.

Com um estiloso fato de quem saiu de casa para a missa de domingo, Lauryn Hill passou boa parte do primeiro acto a tentar que a peruca não voasse e a limpar-se a uma pequena toalha, por vezes perdida nos ajustes que ia pedindo à equalização do microfone. Após partilhar o palco com Wyclef Jean, servindo a primeira dose de Fugees da noite, foi tempo de brindar o público com temas do seu repertório, como “Everything is Everything”, “Lost Ones” ou “To Zion”.
O eclipse aconteceu depois, quando deixou a loja entregue aos convidados e desapareceu de palco, um longo hiato que durou – com excepção a uma curta aparição para “Doo Wop (That Thing)” – uma pequena eternidade. A redenção acabou por surgir já na recta final onde, na companhia de Wyclef Jean, arrancou para um triunvirato Fugees de respeito, com “Killing Me Softly With His Song”, “Ready or Not” e “Fu-Gee-La”. Um final triunfal para um concerto onde, a certa altura, se poderia perguntar: where’s Lauryn?

Com o sol ainda a queimar, o palco principal recebeu o luminoso e vasto mundo de Bruno Pernadas, o discreto condutor de uma refinada orquestra jazz. Para além da escola clássica dos manuais, descobrimos laivos de electrónica, uma guitarra que chegou a cantar na mesma língua de Bad Bunny, teclados que pareciam recolher a água da chuva, sopros encantatórios ou outros sons que navegaram entre a pop melódica e um inquieto espírito de experimentação. Não faltou “Space”, o hit que parece conter o espírito de uma big band, ou o derradeiro “Galaxy”, tema com aquele embalo de filme de espionagem ou de um road movie gravado numa estrada duvidosa. Bem bom.

Depois do Primavera Sound Porto, o trio Criolo, Amaro & Dino voltou a conquistar mais um festival, desta vez a sul. As coordenadas geográficas voltaram a apontar para África, Brasil e Portugal, numa viagem inter-continental feita de muita ginga que não esqueceu o abraço do r&b, o espírito das festas populares ou a guerrilha do hip hop. A química entre este trio é efervescente, com uma senhora presença de palco que resulta em comunhão popular. Semi-parafraseando os próprios, eles são foda.

A grande surpresa deste segundo dia de MEO Kalorama deu pelo nome de Vince Staples, que se apresentou com um “get the fuck up”. Acompanhado de uma senhora banda e vestindo uma T-Shirt dos Geese – a banda que falta trazer a Portugal -, Staples fez deste concerto um acto de camaradagem, tirando ainda uma radiografia a um país. “Muita da minha música e sobre o meu lugar, tenho de mostrar aquilo que se passa”, disse mais à frente.
A aversão policial foi uma constante. “Qualquer pessoa pode ser morta por um polícia na América. Se odeiam a América temos algo em comum”, disse, interagindo por diversas vezes com as filas da frente, fosse perguntando quem já tinha ido aos States ou para falar de geografias específicas, descrevendo New Orleans em estilo de teaser turístico – “Gostas de beber e de acordar no chão?” – ou apontandi Tulson, Oklahoma, como a sua cidade preferida – “Não é como o Texas nem como o Kansas, é algo no meio”.

Num concerto curto mas enérgico, falou do disco “Dark Times” com afeição, mostrando-se surpreendido pelos muitos que disseram tê-lo escutado, aceitando ainda um disco pedido desse LP – acabou por escolher “Little Homies”. Donald Trump, esse, não foi esquecido, aparecendo em fundo desenhado como um bebé chorão, enquanto se escutavam ecos do hino nacional. “Sou o Vince Staples, mostrem à vossa avó”, afirmou já na recta final, num concerto “sobre as coisas que só acontecem na América”. God bless Vince Staples.
Fotos:
Gonçalo Silva (Criolo, Amaro & Dino, Ms. Lauryn Hill – foto de destaque)
Gilherme Cabral (Vince Staples
Duarte (Bruno Pernadas, Ms. Lauryn Hill – foto assinalada)
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Promotora: Last Tour Portugal











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