Os cabeças de cartaz do último dia do MEO Kalorama podem ter sido os Deftones, mas coube aos Turnstile assinarem o melhor concerto no palco principal. Após percorrerem durante alguns anos o espartano trilho do hardcore tradicional, a banda norte-americana lançou, em 2021, “Glow On”, uma epifania musical que conheceu o seu apogeu com “Never Enough”, um dos mais entusiasmantes discos lançados em 2025. É claro que os haters vieram logo falar em vendilhões do templo, um pouco como aconteceu com os Fontains D.C. quando lançaram o enorme “Romance”, mas a verdade é que a sua sonoridade ganhou e muito com a mudança.

Liderada pelo vocalista Brendan Yates, a banda de Baltimore alia o espírito e a atitude punk rock a uma sonoridade onde cabem peso, groove e melodias cativantes e, de cada vez que os vemos ao vivo, terminamos a gritar a mesma frase: It`s never enough!
Menos familiar – e curta – que o brutal concerto de 2025 no Lisboa ao Vivo, a actuação dos Turnstile fez-se em modo festival, com a conversa reduzida ao mínimo e malhas trepidantes que convidaram à celebração, o que resultou em vários e dispersos locais de moshpit, que iam crescendo como cogumelos selvagens.

Nos ecrãs, numa filmagem feita de espírito independente, iam passando imagens da festa popular, onde era notória a alegria dos muitos que encontraram nos Turnstile uma família – ou, pelo menos, uma paixão com o frenesim da adolescência. Há quem tenha levado um telefone dos antigos para acompanhar “Waiting For The Call”, mas o grande destaque entre os muitos cartazes vai para aquele segurado por uma criança que, de olhar fixo na câmara, nos relembrou uma das maiores verdades sobre a experiência humana: never enough love. Três palavras: É-PI-CO.

Quando, a certa altura, vemos um tipo vestido como Jesus Cristo, acompanhado por um outro que poderia ser um dos seus apóstolos, carregados num religioso crowd surf, só pode querer dizer que as coisas estão a dar certo. No palco secundário, os Wednesday fizeram do country uma roda de alimentos, servindo um senhor concerto que foi do country mais clássico, momento aproveitado para uma homenagem a Dolly Parton, ao country-folk abençoadamente punk, que serviu a Karly Hartzman – vocalista e guitarrista – para incitar ao mosh, desejo cumprido numa recta final de quatro temas – “todos bangers”, disse em jeito de propaganda.
Karly Hartzman, que no início parecia fadada a uma prestação vocal menor, foi melhorando com o tempo, e também pelo embalo da garrafa de rosé (?) que ia bebendo do gargalo, isto depois de um primeiro copo servido em palco e deglutido no anonimato dos bastidores. Acompanhada por uma banda que deu cartas, sobretudo Xandy Chelmis – que substituiu com êxito MJ Landerman na lap steel guitar -, Hartzman fez referência aos animais de peluche dispersos pelo público, relembrando o que nos salva quando os governos se estão nas tintas – “Temo-nos uns aos outros” – e falando em causas que importam – “Fuck ICE, free Palestine“. Depois disto, a missa pode bem passar a ser celebrada às quartas-feiras.

Uma surpresa e das boas. É o mínimo que pode ser dito do bem desenhado concerto dos Pelados, a banda brasileira que trouxe ao MEO Kalorama o seu indie-retro-rock feito de teclados eufóricos e experimentais, poesia de relacionamentos do avesso ou stalking no feminino, tudo com um humor bem à brasileira. Como quando nos serviram “modrić”, provavelmente a mais negra e sentimental balada futebolística já escrita. Ficámos fãs.

Quem disse que o punk não pode ser terno ou, se tiver tempo de sobra, dar um salto à pista de dança e abanar a anca debaixo de uma bola de espelhos, ao som de “Mind’s a Lie”? “É uma sorte estar vivo”, partilha Graham Sayle – vocalista dos High Vis – a dado momento, falando de tempos negros em que se deixou arrastar pelo álcool e as drogas, falando sentidamente de um caminho alternativo. No concerto que, depois do ameaço dos tugas Travo, abriu oficialmente a época do mosh e do crowd surf, houve catarse, poesia e electricidade, e também um peluche macaco que saltou como ninguém. Punk’s not dead, definitivamente.

Depois do gangsta rap de Freddie Gibbs, coube aos Clipse mostrarem-nos o melhor do hip hop, feito de pequenas narrativas e uma dicção que, muito provavelmente, levaria para casa todos os prémios de concursos de leitura em voz alta. Formada pelos manos Gene “No Malice” e Pusha T, a banda chegou ao Kalorama com “Let God Sort Em Out”, o “album of the fucking year”, segundo os próprios, reunidos 16 anos depois.
Um concerto que nos trouxe o hip hop da velha guarda, transportando-nos até à vida de bairro e dos dilemas familiares, das rivalidades e da procura de uma identidade, da chegada da maturidade e das várias formas de se lidar com o luto. Uma espécie de poesia das esquinas da vida, que conheceu na recta final um momento memorável: em “The Birds Don’t Sing”, os manos viram-se de costas para o público, enquanto no ecrã vão desfilando fotos suas de criança e dos pais, que ficam imobilizados no ecrã enquanto vamos escutando o monólogo final de Stevie Wonder: “Remember those who lost their mothers and fathers/ And make sure that every single moment that you have with them/ You show them love”. Culturalmente inapropriado? Nem por sombras.
Fotos:
Rita Gazzo (Wednesday)
João Silva (Turnstile – foto de destaque, High Vis, Pelados)
Guilherme Cabral (Clipse)
Sara Hawk (Turnstile)
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Promotora: Last Tour Portugal











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