É uma das grandes edições em vinil dos últimos anos em Portugal, sobretudo por tudo aquilo que representa: a marca impressa de um trabalho meritório que merece ser levado ao colo – ou carregado em ombros -, com o fim de despertar a curiosidade e espicaçar o talento de jovens que poderão, quem sabe, fazer da música a sua missão de vida.
Em cada uma das quatro edições do Omnilab, projecto iniciado em 2023 – produzido pela Omnichord, em parceria com o blackbox e cofinanciado pela DGArtes/República Portuguesa -, jovens músicos entre os 14 e os 21 anos viveram uma semana intensiva, em formato banda, numa residência artística no Serra – Espaço Cultural, partilhando casa, refeições e estúdio – qualquer coisa como uma república musical. Semanas nas quais deram vida, ao longo das diferentes edições, a cinco versões de bandas e artistas do catálogo da Omnichord e a cinco originais.

É essa a viagem contada no duplo vinil “Omnilab” (Omnichord, 2026), onde cada uma das rodelas toca a uma diferente velocidade: o primeiro disco, que viaja a 78 rotações, é composto pelos temas originais; o segundo, a 33 rotações, serve num único lado as cinco versões imaginadas pelas bandas.
Do lado das versões, “Maasai” (Surma) ganha uma ligeira camada de sujidade, com coros tribais a convidar a uma festa à volta da fogueira, cortesia de guitarras em desacordo e de uma voz sem vergonha de pedalar nos efeitos; “On The Sand by The Sea” (Nice Weather for Ducks) chega-nos do fundo do oceano, tentando aqueles que não protegeram, como Ulisses bem avisou, os ouvidos com cera de abelha, navegando em ondas na vibração de umas Last Dinner Party em modo electrónico, preparando a chegada de guitarras a trote em cavalos marinhos; “I Don’t Want Nobody” (First Breath After Coma), esse falso hino à solidão, vai da ameaça da instalação do vazio a um momento indie rock a roçar o punk, como se os Camera Obscura tivessem electrificado as guitarras depois de uma noite de shots; “Our Own Holidays” (Few Fingers) passa dos andamento original dos 5000 metros a um ritmo de 400 metros barreiras, com um certo envolvimento jazz que dá espaço à tarola, a um baixo gingão e ao conforto dos sopros; “One Way Ride” (Bússola) é um momento pop a duas velocidades, onde tanto saboreamos a doçura de um rebuçado cozinhado pelos Mazzy Star como entramos na pista, meio a medo, para uns movimentos de anca ao sabor de um embalo pop retro.
Quanto aos originais, há matéria suficiente para acreditar em vôos mais altos para muitos destes jovens. “Abyss” caminha de uma manifestação popular, onde nas colunas se ouve o “Killing in the name” dos Rage, para um momento rock com o fervor de uns The Cramps em dia mais fofinho, deixando ainda espaço para um coro entre guitarras que planam antes do regresso ao lamento; “Invulgar” é pura lã virgem, um momento de seda pop que poderia servir de banda sonora a uma viagem ao espaço em primeira classe, com a bênção de teclados a la AIR; “She Walks On Roses” é uma caminhada com calçado shoegaze, alternando entre o carrossel das chávenas e girafas com uma montanha russa de uma só cambalhota, com uma voz que viaja entre a luz e as sombras; “Where To Go” é um belo momento indie/pop em direcção à estrela mais próxima, enquanto, pelo caminho, nos vamos interrogando sobre as grandes questões da vida; em “The Room” são as cordas a dar cartaz, momento de pop saltitona numa onda de uns Real Estate mais emocionais.
Para além da edição em vinil, outros momentos registaram para a posteridade este Omnilab, seja uma reportagem que desvenda um pouco o que é esta residência artística, registos fotográficos diversos ou videoclipes espalhados pela auto-estrada digital. Estão de parabéns todos os envolvidos neste projecto, sobretudo a Omnichord que, diga-se, repetiu a gracinha mas agora com um Omnilab para maiores de 65 anos de idade. E esta, hein?












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