Na tarde da passada terça-feira (14 Julho), começaram a circular vídeos de David Byrne, montado na sua bicicleta, a circular por Cascais, horas antes de dar início ao seu concerto no Ageas Cooljazz. Membro fundador dos Talking Heads, David Byrne está agora com 74 anos, e o seu espectáculo está a milhas do formato habitual, obrigando a uma preparação física considerável.
Ao longo de uma carreira singular, onde foi sempre dado à multidisciplinaridade, Byrne estendeu a sua criatividade a áreas tão distintas quanto a dança e o teatro, escrevendo livros sobre teoria musical, outros partilhando memórias, para além de uns pulos ocasionais ao universo da sétima arte. Pelo meio, arranjou tempo para fundar a Luaka Bop, editora que durante anos desempenhou um papel fundamental na divulgação das chamadas músicas do mundo, sobretudo de artistas vindos da América do Sul e do continente africano.

A sua importância e relevância no panorama musical não estão, porém, confinadas a um passado distante, e a admiração que recolhe junto de artistas mais novos tem sido publicamente reconhecida. Entre 2009 e 2012 colaborou com St. Vincent, naquilo que viria a ser o longa-duração “Love This Giant”, que teve como semente e base a secção de metais e foi desenhado de forma democrática, numa prolongada troca de arquivos, ideias e músicas durante três anos. Mais recentemente, o prodígio Olivia Rodrigo convidou Byrne para subir a palco durante um dos seus concertos, para uma interpretação de “Burning Down The House”. No vinil que foi lançado para assinalar o 5º aniversário de “Driver´s Licence”, há também uma versão reimaginada de Byrne para o tema, o que diz bem da forma como Byrne tem continuado a exercer fascínio sobre as gerações mais novas.

Ao Cooljazz, David Byrne trouxe “Who Is The Sky?”, disco editado em Setembro de 2025, mas a viagem musical foi de longo curso, começando com um aviso sonoro a fazer lembrar uma conversa de avião, qualquer coisa parecida a isto: “Podem dançar. Pedimos que limitem as gravações de audio e vídeo. Se dançarem, deixem as entradas livres, uma vez que em caso de fogo terão vantagem na evacuação”.
Em palco, David Byrne, músicos e dançarinos, todos com alma de actor, vestem uma indumentária comum, que poderíamos imaginar num pátio prisional chique ou num campo de paddel em dia mais fresco: pólo de manga curta, calças e ténis, todos de um azul quase néon. Ao longo de hora e meia, entre clássicos intemporais dos Talking Heads e canções do repertório Byrniano, a banda transformou este concerto num musical singular, com esta maravilhosa trupe circulando pelo palco, entre a dança e a representação, acompanhada de projecções que surgiam em três ecrãs, muitas vezes emprestando um lado político e transformador – como quando, antes de “Everybody Laughs”, relembra que “o nosso céu é o único que temos”.

No ecrã é-nos mostrado uma série de bicicletas alinhadas. “A minha é a mais bonita”, diz-nos Byrne, antes de partilhar terem ido até Lisboa, a um lugar a que alguns chamam a “twilight zone” – onde terão ido? De seguida, conta-nos uma história fabulosa sobre os tempos de escola e adolescência, quando aos 16 anos conheceu uma rapariga que parecia estar sempre feliz. “Saberia ela algo que eu desconhecia?”. Numa conversa mais profunda, confessou a Byrne que gostaria de se deitar num campo e tomar LSD. “Não estava preparado para percorrer essa estrada da felicidade. Mas escrevi uma canção sobre isso”. Essa canção dá pelo nome de “And She Was”, um dos muitos hinos dos Talking Heads.

Pegando numa citação de John Cameron Mitchell, diz-nos que “o amor e a bondade são as coisas mais punk que podemos fazer hoje em dia”, aproveitando para regressar a 2025 e ao mais recente disco, servindo-nos “What Is The Reason For It?”, que chega com um certo embalo de festa minhota enquanto, no branco do ecrã, se passeiam ciclistas e pára-quedistas animados.

Byrne fala sobre os sentimentos dos animais, e da nossa separação em relação à natureza, sossegando-nos sobre este último afastamento: “A boa notícia é que não tem de ser sempre assim”. Recorda-se os tempos da pandemia, onde na Itália as pessoas saíram para as suas varandas para cantar e relembrar o dia da libertação do fascismo. Relembra Arthur Russell, responsável pelos arranjos de “Psycho Killer”, que “morreu de Sida nos anos 1990”.

Durante “Life During Wartime”, enquanto as congas vão criando a atmosfera propícia, passam imagens antigas de protestos contras as políticas anti-imigração, tão presentes nessa época como nas políticas actuais. Tudo isto e muito mais, antes de nos contar sobre a epifania sentida quando, após o silêncio e o recolhimento sentidos durante a pandemia, ouviu pessoas a falar durante um passeio de bicicleta: “Apesar das diferenças e da loucura, as pessoas adoram estar umas com as outras”.
No ecrã, em jeito de despedida cinéfila, passam os créditos e a ficha técnica deste delírio Byrniano, que de forma figurativa pegou fogo à casa Cooljazz. Um triunfo absoluto – e que privilégio termos visto David Byrne em estado de graça.
Fotos: Live Experiences











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