É uma daquelas escritoras pouco conhecidas em Portugal, tanto pela sua obra breve – entre 1968 e 2014 publicou apenas oito livros – como, sobretudo, pelo facto de nas livrarias nacionais e até 2023 não se descobrir qualquer exemplar dos seus livros.
Fleur Jaeggy nasceu no ano de 1940, em Zurique (Suiça). Passou a infância e adolescência em colégios internos na Suíça, algo que sobressai de alguma forma na sua escrita austera. Trabalhou brevemente como modelo fotográfico, antes de se mudar para Roma, nos anos 1960, onde passou a frequentar o círculo literário da época e se tornou amiga de escritores como Ingeborg Bachmann, Thomas Bernhard, Italo Calvino ou Joseph Brodsky. Em 1968, foi viver para Milão e começou a colaborar com a Adelphi, icónica casa editorial italiana. Nesse mesmo ano casou-se, em Londres, com o escritor e editor Roberto Calasso, fundador da Adelphi. Traduziu Marcel Schwob, Thomas de Quincey e Robert Schumann; escreveu sobre John Keats e Robert Walser. Continua a viver em Milão, mantendo um quotidiano de quase reclusão que encaixa bem numa escrita feita de frases que se sentem como curtas incisões.
Foi em 2023 que a Alfaguara deu início à publicação da obra de Fleur Jaeggy em Portugal, com o lançamento de “Felizes Anos de Castigo”, a que se seguiram “Viagem no Proleterka” (2024) e “O Medo do Céu” (2025).

“Viagem no Proleterka” (Alfaguara, 2024) faz-nos subir a bordo do Proleterka – “proletária” em tradução mais ou menos livre -, onde acompanhamos uma viagem entre um pai e uma filha, quase desconhecidos um para o outro, como confidencia a filha antes mesmo de subir a bordo: “Queria falar-vos de Billy Budd, em vez de contar esta história breve içada num mastro, que baloiça com o vento de proa à mercê do nada. (…) Conheço muito melhor Billy Budd do que o meu pai”.
O pai, Johannes H., fazia parte de uma Corporação, para a qual entrara quando ainda estudante. Perto de chegar aos sessenta anos, tinha “cabelo branco, liso, com risca ao meio. Olhos claros e gélidos, inaturais. Como uma fábula infantil do gelo. Olhos invernais. Entrevê-se um clarão de capricho romântico”. A filha, em tempos abandonada pelo pai, considera ter contraído a “dádiva do desapego”, mas ainda assim embarca com o pai numa travessia de 14 dias que soa a despedida: “É a nossa primeira viagem – e parece a última”.
Ao contrário de uma viagem de redenção, Fleur Jaeggy troca as voltas ao leitor e conta-lhe, antes, uma história sobre a descoberta do desejo, do sexo e do prazer, de alguém que considera o “nada” como a matéria primordial do pensamento. Isto enquanto nos vai contando a história de uma família composta por “aspirantes a suicidas”, em parágrafos que são como garrafas de vidro à deriva. Um livro que se lê como uma assombração sobre água, e que na pele desenha uma tatuagem que deixa cicatriz.

“O Medo do Céu” (Alfaguara, 2025) reúne sete curtíssimos contos que, mais do que o céu, são interligados por um medo com muito de desamparo: “Sem destino” mostra-nos o ódio quase visceral de uma mãe à própria filha, cuja ideia de felicidade lhe “feria como uma lâmina ardente”; “Uma mulher” apresenta-nos a uma velha criada que se tornou uma sombra de carne e osso de uma defunta; por entre uma desinfestação entre gente que parece não ter memória, “A casa gratuita” tem matéria para lutas de classes, benfeitorias armadilhadas e privação de direitos civis; “A promessa” traz-nos uma “rapariga que olhava para as serpentes e parecia reconhecer algumas”, e uma outra que, apesar de não nutrir particular simpatia pelos animais, os prefere visitar a passar o tempo no café; “Porzia” remete para o conceito de pertença – ou propriedade -, pela mão de uma jovem que nem o facto de ter já 24 anos a demove de vestir-se quase sempre de um carregado cor-de-rosa; “Os gémeos” passeiam-se por uma inquieta aldeia sem nome, um lugar em que “os habitantes têm os olhos escondidos”, uma geografia onde se sente a falta de desejo, a ausência de amor e a negação da empatia, parecendo apenas existir um mantra: “A essência da vida está na limitação. Ou na omissão”: a fechar está “A velha vaidosa”, um conto que faz humor com ossos e que nos brinda com um final apoteótico e… estranhamente feliz.
Espera-se agora que a Alfaguara continue a lançar por cá a obra de Fleur Jaeggy, que faz da inquietação – a sua e a nossa – uma pedra de toque que se sente como um beijo fantasma.











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