Privacidade, liberdade e sossego são alguns dos conceitos que Mr. Biswas associa à posse de uma casa, mas a sorte é-lhe madrasta. Nascido entre prenúncios aziagos, evocados constantemente ao longo da sua infância, é forçado a deixar “a única casa onde tinha alguns direitos” após a morte precoce do pai. A partir desse momento, durante 35 anos será “um deambulador sem poiso certo”, repetidamente frustrado nas suas ambições.
A história deste homem, que percebemos ser inteligente e divertido – mas que também se mostra com frequência rancoroso e mesquinho -, é-nos contada por V. S. Naipaul (1932-2018) – Prémio Nobel da Literatura de 2001 – em “Uma Casa para Mr. Biswas” (Quetzal, 2025 – reedição). O cenário é a ilha de Trinidad, onde o autor nasceu, no tempo em que ainda era uma colónia britânica, e o protagonista é, tal como ele, de ascendência indiana. A recriação do tempo e do lugar, com o seu caldo de etnias e religiões, é um dos pontos fortes do livro, mas a odisseia do protagonista, descrita do início ao fim da vida, ao longo de quase 700 páginas, não lhe fica atrás.
Um acontecimento fulcral, cujas consequências afectam o resto da sua vida, é um galanteio inocente, que o leva a um casamento inesperado. Em comparação com a família original de Mr. Biswas, a da esposa é uma enorme massa humana ruidosa, com hierarquias e lealdades complexas. Mais de uma vez, proporcionam a Mr. Biswas tecto e emprego, mas ele jamais consegue integrar-se.

Com o passar dos anos, aumenta a “nostalgia de uma vida feliz nunca vivida e para sempre perdida”. Apesar de encontrar um escape na leitura, são anos consumidos por confrontos e humilhações, em que o seu próprio comportamento está longe de ser exemplar: entrega-se a práticas absurdas, cai em esparrelas, atormenta a mulher, culpa os outros pelas situações em que se encontra e nem sempre assume as ofensas que lhes dirige pelas costas. O dinheiro nunca fica muito tempo na sua posse, e o futuro parece-lhe cada vez mais um poço sem fundo.
Na segunda parte do livro, Mr. Biswas vence finalmente a passividade, parte para um meio desconhecido e obtém um emprego que o motiva, na redacção de um jornal cuja política é deixar as notícias para os outros. Os artigos do protagonista nunca lhe valeriam um prémio deontológico, mas oferecem-nos autênticas pérolas de humor negro. Porém, a situação muda e o seu entusiasmo esvai-se. As voltas da realidade ainda lhe reservam surpresas.
Através do percurso de Mr. Biswas, de uma casa para outra, acompanhamos também a história da esposa, dos filhos e das famílias de ambos – bem como de uma série de objectos que o casal vai acumulando e transportando consigo, e cuja transformação testemunha os percalços enfrentados. Pelo caminho, predomina um “sentimento de aguda desolação”, mas também há a esperança de quem vai insistindo em procurar o seu lugar no mundo.











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