Tremelgo de Cima, Balurco de Baixo, Silgado, Deserto, Tesouro… são os nomes de alguns dos lugares percorridos por Rui Araújo, numa “excursão de moto, sem acompanhantes, sem destino e sem pressas”, com a intenção de escutar memórias, testemunhos e silêncios das gentes esquecidas dos montes do Nordeste do Algarve. “Um Tesouro no Deserto: O Algarve entre Montes e Memórias” (Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2025) é o registo dessa viagem, cumprindo plenamente o objectivo de dar voz a uma população envelhecida, que se foi vendo cada vez mais só, entre a morte dos velhos conhecidos e a partida das massas para o litoral e para as urbes.
A impressão transmitida é a de um mundo no qual “tudo parece estar a desagregar-se”. Apesar da rica descrição da vegetação, a canícula impera e faltam mãos para trabalhar nos campos que antes eram lavrados. As escolas encerraram, o acesso ao comércio e a outros serviços ficou cada vez mais distante, as poucas opções de vida reduziram-se ainda mais, e o futuro afigura-se sombrio. A maioria dos entrevistados cresceu pobre, tornou-se – quando muito – remediada, e vive numa solidão reforçada pelo medo da bandidagem que se aproveita do isolamento. “Ignoramos quase tudo do viver e morrer destes homens e destas mulheres, dos seus sentimentos mais intensos, dos seus costumes e dos seus sonhos”, escreve o autor. Não surpreende que as suas histórias de desalento mencionem com frequência a morte: por exemplo, o monte apropriadamente chamado Deserto – um “lugarejo perdido” onde o autor procura o casal de idosos “sós e tristonhos” que aí conhecera há uns anos – ficou abandonado desde que os dois se finaram. Também num salto a Pescueza, “uma terriola da Estremadura espanhola”, onde investiga um projecto que visa combater o despovoamento proporcionando “uma vida mais digna e mais autónoma aos seus idosos”, descobre que um velho poeta faleceu poucas semanas após o entrevistar. Porém, no meio da desolação, há quem se declare feliz e demonstre alegria de viver. E o presidente da Câmara de Alcoutim, o concelho “mais despovoado do Algarve e um dos mais pobres do país”, tem ideias para reverter a situação.
Pelo caminho, Rui Araújo também descobre algo acerca de si próprio: “afinal, não é do campo nem do mar que eu gosto – é das pessoas”. Trata-se de um facto que se nota na sua escrita, profundamente humanista, respeitadora das diferenças de opinião e atenta a tudo quanto fica por dizer, na qual a reprodução dos diálogos é sabiamente cruzada com as descrições e as referências oportunas a escritores como Raul Brandão. Este livro é a sua sentida “homenagem aos camponeses da raia, que teimam em sobreviver onde a terra acaba e nenhum mar começa…”.












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