“O Labirinto dos Sentidos” (Fábula, 2025) responde, ao jovem leitor, sobre questões relacionadas com a neurociência, através de uma simples aventura sobre aquilo que somos e sobre a forma como experienciamos o mundo. Nesta aventura, Alma, a protagonista, entra no labirinto dos sentidos e explora-os. Os sentidos são apresentados como a principal forma de contacto, do ser humano, com o mundo, mas também como algo limitado e, por vezes, enganador. Através da experiência de Alma, o leitor toma consciência de que aquilo que vemos, ouvimos ou sentimos poderá não corresponder, necessariamente, à realidade tal como ela é, antes à forma como o nosso cérebro a interpreta. Esta ideia surge como um convite à reflexão e ao diálogo, sobre se o conhecimento humano poderá ser ilusório, parcial ou exactamente como o percepcionamos. Estaremos sujeitos a erros e ilusões sem disso termos consciência? Se assim é, compreender o mundo exige de nós, seres humanos, um questionamento, uma inquietude, uma desconfiança e uma reflexão constantes?
O leitor acompanha o passeio de Alma à beira-mar, escutando o “correr da água e os pássaros a cantar do alto das árvores”. Para Alma, sentir a relva fresca nos pés descalços, cheirar as flores era um gosto enorme, tornando os seus dias mais encantatórios, até que se deparou “com um arbusto frondoso em que nunca reparara. Ao lado, encontrou uma placa de madeira com as palavras Labirinto dos Sentidos e uma grande seta a apontar para ele”. Movida pela curiosidade, entra nesse misterioso labirinto, espaço simbólico que representa a mente humana. A partir daí, inicia uma viagem de descoberta onde encontra personagens e situações que a levam a questionar aquilo que vê, ouve, sente e acredita.

Ao longo do percurso, a narrativa não se limita a contar uma história: propõe perguntas, levanta dúvidas e convida o leitor a reflectir sobre a realidade, os limites dos sentidos e a forma como interpretamos o mundo. Uma narrativa com pinceladas de neurociência, psicologia e filosofia, em que o enredo funciona como pretexto para ampliar a curiosidade, estimular o diálogo e questionamento e exercitar a forma de pensar.
É inevitável reconhecer algumas semelhanças com “Alice no País das Maravilhas”. Tal como Alice, também Alma entra num mundo desconhecido a partir de um gesto de curiosidade, atravessando um espaço cheio de encontros insólitos e questionadores. Ambas as obras exploram a estranheza, o absurdo e a instabilidade da percepção. No entanto, enquanto a obra de Lewis Carroll aposta mais no nonsense e no jogo lógico-linguístico, “O Labirinto dos Sentidos” orienta essa viagem mais explícita sobre a mente, o conhecimento e a ciência. A semelhança está na estrutura da viagem iniciática; a diferença está na intenção filosófica e pedagógica mais assumida no livro contemporâneo.
As ilustrações de Ana Luísa Oliveira ajudam a construir o ambiente sensorial e simbólico do labirinto, reforçando o carácter onírico e introspectivo da viagem. Palavra e imagem dialogam constantemente, criando uma leitura envolvente e apetecível. Um livro para ler e dar a ler, para questionar, dialogar e pesquisar.











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