Depois de nos oferecer romances viscerais como “A Estrada Subterrânea” ou “Os Rapazes de Nickel”, Colson Whitehead decidiu descomprimir e escreveu “Ao Ritmo de Harlem” (ler crítica), o primeiro volume de uma trilogia criminal passada no Harlem, um bairro pulsante dominado por pequenos trafulhas numa mistura bem doseada de comédia e tragédia e muita – mesmo muita – conversa sobre mobiliário.
Ray Carney, o protagonista, é um vendedor de mobília, pai de família, homem aparentemente pacato e engenhocas, herdeiro de uma linhagem familiar tremendamente rufia a que, lentamente, vai cedendo. Em “Tratado de Vigaristas” (Alfaguara, 2024), o livro do meio da trilogia, Carney partilha o protagonismo com outras singulares personagens, numa altura em que a criminalidade está em alta e cada um se tenta safar da melhor maneira. Como se lê no lançamento, “fazia-se comércio, um comércio ordeiro, entre as paredes dos Móveis Carney, mas nas ruas valiam as regras do Harlem: turbulentas, imprevisíveis, mais frívolas que um tio que nunca fez nada na vida”.

Por entre o fervilhar de emoções entre os Panteras Negras e o Exército Negro de Libertação, Colson Whitehead traz para a linha da frente o Inspector Munson e os seus tentaculares esquemas de extorsão, ao mesmo tempo que nos apresenta ao mundo da sétima arte, colocando Pepper, amigo de Carney, na pista de Lucinda Cole, a protagonista de um pretenso blockbuster que deu o sumiço antes das filmagens.
Ray Carner parece, com o avançar da idade, ter adoptado uma nova atitude perante a vida, mas numa cidade que vive um eterno devir de embrulhadas nunca se sabe o que o dia seguinte – ou o livro final da trilogia – reserva.











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