Nikolái Gumilióv, co-fundador da corrente poética acmeísta, encontrou na prosa um veículo de expressão literária capaz de apoiar o movimento artístico da Geração de Prata, no qual militou até à sua morte precoce, às mãos do regime soviético.
A prosa de Gumilióv é, de certo modo, como a sua poesia (e como a nossa RTP2): culta e adulta. “Todas as Noites Sonho com Um País Diferente: Prosa Reunida” (Assírio & Alvim, 2025) ilustra o amor do escritor pela precisão e beleza das palavras, dentro e fora do domínio do verso.
Poeta errante, crítico literário e guerreiro, Gumilióv ficou célebre pelo extraordinário percurso de vida, tão ou mais singular que a própria carreira criativa. Viajou extensivamente pela Europa e África até rebentar a Primeira Grande Guerra. Patriota fervoroso, alistou-se ao serviço da Rússia czarista e lutou, como voluntário, na linha da frente do conflito. As suas convicções monárquicas (mais concretamente, anti-comunistas) ditaram mais tarde o seu fuzilamento, aos 35 anos de idade.

“Todas as Noites Sonho com Um País Diferente”, que reúne a prosa de Gumilióv (até agora inédita em Portugal), integra contos e ensaios, assim como os seus diários de viagem e testemunhos de guerra. Organizada cronologicamente, a obra acompanha a marcha criativa do poeta-cavaleiro, que, de texto para texto, deixa para trás o pendor simbologista e alcança uma prosa luminosa, invariavelmente erudita mas inteligível.
A trama dos contos revela mistérios primitivos e peripécias cavaleirescas. Os seus roteiros de viagem transmitem lendas de princesas virgens de ébano entre os povos selvagens da planície africana. E até os diários de trincheira comungam do mesmo fascínio pela imagética exótica e terras distantes.
Pelas páginas deste livro, entre o roçagar dos vestidos de seda das damas da corte, o rosnar de leões famintos e o desembainhar de espadas, sobressai a voz dos protagonistas destemidos e sedentos de aventura, cuja determinação evoca a própria vida de Nikolái Gumilióv. Uma vida curta mas intensa que, para muitos, foi a sua maior obra.











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