O mal enquanto fonte de prazer e de desejo surge como epicentro do mais recente livro de Miguel D’ Alte, – “Todas as Famílias Felizes” (Suma de Letras, 2025) -, escritor que nos habituou a temas variados, personagens intensas e uma narrativa consistente, que conjuga com subtileza e solidez.
“Todas as Famílias Felizes” é um romance policial contemporâneo, centrado no desaparecimento de uma criança no Porto. A história e as suas personagens são fictícias, mas o tema e a forma como a narrativa discorre podia ser retirada de um trabalho jornalístico de investigação policial, tal o detalhe, a envolvência e o suspense que comporta.
De forma sublimar, um outro tema emerge e mantém-se presente ao longo de toda a história: que famílias cometem crimes contra crianças, que formas de abuso são possíveis descortinar nas práticas quotidianas de quem cuida, em quem (des)confiar e, acima de tudo, quando algo dramático acontece, como olhar o ambiente familiar ou doméstico – como um local de protecção ou de risco significativo?
Miguel D’ Alte recupera Ademar, um jornalista polémico que, no início do livro, vive isolado e numa espécie de penitência, após ter estado envolvido na resolução dos crimes do livro anterior do autor, “Os Crimes do Verão de 1985”. Ademar volta a ver-se catapultado para o epicentro da investigação pelo desaparecimento de Clara Paixão, uma jovem de 12 anos, o sinal de alerta para algo muito mais profundo e complexo.

Ademar sai do seu isolamento voluntário onze anos depois de ter trazido a público um dos casos mais chocantes do país, levando à prisão vários políticos, acusados de pedofilia. Seguiu-se um período de degradação pessoal acentuada, incapaz de lidar com o sucesso. Agora, volta a confrontar-se com os sinais de existir alguém que há décadas rapta, viola e mata crianças, passando despercebido. O que ligará os dois casos e, principalmente, o que levará alguém a cometer actos tão monstruosos? A história surge com todos os ingredientes preparados: a dramática notícia do crime, a dose intensa de suspense, o nevoeiro da investigação e o poder da comunicação. Um cardápio completo que aguça o leitor a entrar sem receio no seu desenvolvimento.
“Todas as Famílias Felizes” está escrito como se fosse um argumento cinematográfico, resumindo a história completa de um enredo potentíssimo, incluindo personagens, conflitos e clímax. A forma como comunica a essência da história ao leitor torna-o envolvente e emocionante, aportando elementos de reflexão como o papel da denúncia no propósito jornalístico, bem como as ténues fronteiras e as relações pouco consensuais entre a investigação policial e a jornalista. Afinal, “a linha que separa o bem do mal, o certo do errado, ou, em último caso, os polícias dos bandidos, é muito fina; por vezes, até invisível”.











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