No final de “Viúva de Ferro” (ler crítica), Zetian conseguiu cumprir o objectivo de aniquilar os centros de poder da nação chamada Huaxia, tendo para isso reanimado o imperador Qin Zheng que, 200 anos antes, mergulhara numa espécie de criogenia. Porém, o preço a pagar foi alto, e os segredos desvendados subverteram crenças que sempre tomara por verdadeiras. A saga continua em “Tirania Celestial” (Saída de Emergência, 2025), com a protagonista a descobrir que governar não é fácil e que as suas conquistas são instáveis, pois a nova ordem nascida do caos também a confronta com múltiplas ameaças.
Estamos perante um enredo brilhante de ficção científica, no qual a jovem autora Xiran Jay Zhao – uma canadiana nascida numa pequena cidade chinesa – projecta num futuro distópico elementos do nosso passado, desde a China imperial à implosão do mercado imobiliário, por culpa dos bancos resgatados com dinheiro dos contribuintes. A forte inspiração na personagem histórica de Wu Zetian, a única imperadora da China, é assumida desde o início, mas neste segundo volume identificamos também ecos das políticas draconianas do imperador que unificou aquele país, bem como de revoluções várias e das lutas contra diferentes formas de opressão.
“Estou a postos para chacinar os deuses” – é com este pensamento que a protagonista inicia a narrativa na primeira pessoa, face à descoberta de que criaturas supostamente divinas têm manipulado os humanos, vedando-lhes certos estudos e aprisionando-os numa guerra sem fim contra seres conhecidos como Hunduns. Para isso, aliar-se-á relutantemente a Qin Zheng quando este ascende ao poder, pois reconhece que o exerce “com um propósito que vai para lá da glória e da fortuna”, e que terá maior facilidade em corrigir injustiças sociais e realizar as mudanças que ambos pretendem. Entretanto, dos dois homens que ela ama, um encontra-se refém dos deuses, enquanto o outro se envolve em jogos complicados, tentando sobreviver e, ao mesmo tempo, satisfazer o seu próprio desejo de vingança.

A escrita é politicamente engajada, destacando-se, num mundo ferozmente patriarcal, o feminismo de Zetian, que já se revelara no primeiro volume e ao qual se junta agora a luta contra as desigualdades económicas entre os habitantes de Huaxia. Todavia, o cenário não é cor-de-rosa, as revoluções não são perfeitas e Zetian nem sempre é uma figura exemplar. Na sua situação, não há espaço para a fraqueza, nem para a compaixão. A sobrevivência exige o recurso a todos os meios necessários, e isso tanto pode implicar a difusão de propaganda para manipular as massas, como viver com pesadelos pelas mortes que causou. A ambiguidade moral deste mundo é algo que contribui para torná-lo fascinante, mantendo o leitor na incerteza quanto às decisões que as personagens irão tomar e ao consequente rumo da acção. Provavelmente, a única certeza a que nos poderemos agarrar é que Zetian continuará a desafiar ideias pré-concebidas e a ser motivada por uma ânsia inabalável de liberdade.











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