“Terráqueos” (Nuvem de Letras, 2024) – Os Segredos da Terra revelados por Extraterrestres no sub-título – é um livro muito singular, encantador. Um verdadeiro exercício criativo e ousado: um olhar para a Humanidade a partir de uma perspectiva externa, quase científica, como se fôssemos observados por olhos alienígenas. Esta forma de apresentar a narrativa revela-se um recurso poderoso, permitindo ao leitor distanciar-se de si mesmo e pensar comportamentos humanos com espanto, ironia e, muitas vezes, com um olhar analítico, crítico, reflexivo.
No início, o leitor é esclarecido de que irá ler o “relatório oficial da Expedição de Pesquisa Interplanetária, traduzido para língua terrestre portuguesa. Foi originalmente apresentado à Alta Comissão Interplanetária, composta por representantes de todas as espécies de formas de vida inteligente no Cosmos. Há muito tempo que a comissão tem vindo a recolher dados sobre sinais de vida inteligente no Universo. Este é o primeiro estudo abrangente sobre terráqueos, habitantes do planeta, conhecidos como Terra”.
Neste relatório, cada capítulo apresenta um tema como “Planeta Terra”, “Terra e Água”, “Incapacidades”, “Anatomia Terrestre”, “Relacionamentos”, “Questões de Higiene”, Resiliência Terrestre”, ou “Comunicação”, entre muitos outros. No capítulo “Comunicação”, o leitor fica a saber que “para cada 100 terráqueos, 87 sabem ler e escrever, 87 frequentam a escola primária, enquanto 66 frequentam o ensino secundário e 40 estudaram numa instituição de ensino superior, sendo que 7 receberam diploma universitário”. Uma informação que poderá suscitar diversas questões: Só 87 em 100 terráqueos sabem ler e escrever? Porquê? Quem não sabe ler e escrever está limitado na compreensão do mundo e a interacção social? Será isto justo? E como lutar contra este facto?

Em todos os capítulos, muitos são os factos que nos suscitam questões – muitas questões. O leitor descobre que Ewa Solarz elabora um relatório sobre os “terráqueos” como seres estranhos, contraditórios e capazes de feitos grandiosos, mas também de auto-destruição, levantando uma questão essencial: como nos vemos e como queremos ser vistos?
“Terráqueos” tem um enorme potencial. Não é uma enciclopédia ou um livro informativo, nem tão pouco um álbum ilustrado – mas também o é. Apresenta-se como uma obra híbrida, abraçando géneros narrativos, tratando diferentes temáticas como diversidade cultural, ecologia, tolerância e identidade, tudo de forma indirecta e criativa. A estrutura em capítulos curtos e bastante visuais é atractiva, aguçando a curiosidade e convidando ao diálogo.
As ilustrações de Robert Czajka,coloridas e estilizadas, enquadram e ampliam o significado do texto. As guardas, iniciais e finais, são mapas que nos ajudam a (re)pensar a nossa localização no espaço geográfico: a Terra.

A dupla Solarz e Czajka oferece ao leitor a oportunidade de olhar para si próprio, reflectindo sobre a condição humana e o impacto que tem no planeta, e o tipo de humanidade que quer construir.
Ewa Solarz é historiadora de arte de formação, curadora independente de exposições educativas e autora de livros para crianças e jovens há muitos anos. Tem vindo a desenvolver inúmeros projectos de forma a promover a cultura, a arte e o design polacos, razão pela qual as suas exposições são, por definição, polivalentes, transportáveis e adaptáveis a diferentes espaços.
Robert Czajka é ilustrador e designer gráfico, licenciado na Faculdade de Pintura da Academia de Belas Artes de Varsóvia.











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