Assinada por Shigeru Mizuki, “Showa. Uma história do Japão (1926-1939)” (Devir, 2025) é a primeira de quatro partes de uma obra de grande fôlego sobre a Era Showa, que fica entre uma lição de História e uma auto-biografia desenhada.
Com início em 1926, tendo-se estendido até finais do séc. XX, este foi um dos períodos mais turbulentos e transformadores do Japão, aqui retratado através do olhar personalizado, participativo e confessional de Mizuki, autor de quem a Devir já publicou obras como “Marcha para a Morte” (ler crítica) ou o incrível “Nonnonba” (ler crítica), que por aqui recebeu a distinção de melhor álbum de banda desenhada editado em Portugal no ano de 2017.
“Simultaneamente, a história da Era Showa foi também a minha própria história”. As palavras são de Shigeru Mizuki, escritas após um breve resumo dos diversos tumultos sociais e políticos que agitaram o Japão neste período, dando início a um volume que percorre 14 anos de história(s).

No plano pessoal, Mizuki fala-nos do seu nascimento, da proximidade com Nonnonba – a sua avó e cuidadora -, das dificuldades profissionais do pai que o obrigaram a reinventar-se e a emigrar ou, com muito humor, para a sua própria inabilidade que parecia não ter fim, aqui nas palavras de Nezumi-Otoko – o narrador que aparece sempre que a história não correr bem: “Bem, como posso explicar? Os seus dias de juventude foram marcados por uma falta de sintonia com o mundo ou uma sucessão de acontecimentos curiosos”.
No plano histórico, muitos são os acontecimentos e episódios históricos aqui retratados, sejam eles o grande sismo de Kantō, as campanhas na China que geraram um forte sentimento anti-Japão, a grande depressão de Showa – reflexo do grande crash da bolsa americana -, a Conferência Naval de Londres, a implantação do fascismo, o início da segunda guerra sino-japonesa, o massacre de Nanquim, a guerra com a União Soviética ou o início da II Guerra Mundial.

Pelo meio, Mizuki vai introduzindo o surgimento de invenções que mudaram a vida individual ou em sociedade, como o primeiro rádio, o entaku – ou táxi de um iene, o valor de uma viagem -, os Enpon – livros que custavam um iene, e que num volume reuniam três ou quatro edições encadernadas de obras japonesas -, os Talkies – filmes com som – ou, a nível pessoal, as suas muitas colecções e obsessões ao longo dos anos.
Há, pelo caminho, notas de rodapé de perder de vista, mas para fruir de uma leitura que apresenta já uma grande densidade, talvez seja algo para deixar passar ao largo – ou ao qual retornar mais tarde, aquando de uma segunda leitura. As ilustrações de Shigeru Mizuki são incríveis, seja no desenho de pessoas comuns, de seres que parecem saídos dos contos e lendas japoneses ou na forma como ilustra, como se partisse de fotografias arrancadas a manuais de história, cenários de grandes dimensões, onde cada pormenor parece estar em perpétuo movimento. Esperemos que a Devir mantenha a aposta, fazendo chegar às livrarias os restantes três volumes desta obra monumental.











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