Todas as famílias têm segredos, que passam de geração em geração e chegam a ser casos de vida ou de morte. Em “Seis Malas” (D. Quixote, 2025), Maxim Biller escreve sobre um desses enigmas, cujas repercussões negativas continuam a afectar, até hoje, uma família. Os temas centrais do livro são a memória, a traição, a fragmentação familiar e o peso da história política sobre os destinos individuais, explorados de forma poderosa e simbólica.
O romance de Maxim Biller é uma viagem retrospectiva à história de uma família e de um regime, onde os protagonistas pertencem a uma família russa e judaica que se confrontou com o poder déspota da União Soviética. Cada um dos seis membros da família carrega consigo uma mala — símbolo da bagagem emocional, histórica e ideológica que transportam ao longo da vida.
O relato situa-se entre a década de 1960 e o final dos anos 1980, com evocações aos anos 1930 e ao modo de sobrevivência num regime marcado pelo controlo absoluto, pela repressão e pela constante vigilância. Quatro irmãos judeus russos seguiram caminhos distintos: alguns partiram para Zurique, outros para o Brasil, outros ainda permaneceram na Rússia até mais tarde, hesitantes entre a lealdade e a fuga. A oposição, a prisão, a execução e o exílio são episódios que atravessam a realidade desta família, fragmentada não apenas pela geografia mas, também, pelas escolhas morais e políticas.
A narrativa começa por ser conduzida pelas memórias de um jovem da terceira geração que observa, sente e tenta compreender os conflitos, declarados ou silenciosos, que marcaram a sua família. Ao tornar-se escritor, procura dar sentido aos segredos, às traições e às ambiguidades herdadas.
“Seis malas” é também uma história sobre traição, mentira, memória e identidade. Um dos irmãos é acusado de delação, responsabilizado pela prisão e execução do pai, apanhado ao tentar fugir para o Ocidente. Os quatro irmãos fizeram escolhas diferentes: dois fugiram cedo, os outros demoraram, presos entre o medo e a esperança. A narrativa levanta a questão: será possível viver no lado errado do mundo, ou apenas no lugar onde a história nos colocou?

Em muitos aspectos, trata-se de uma verdadeira história de Caim e Abel, marcada por sucessivas traições entre irmãos. Uma família cobiçosa, sentimental e paranóica, ingénua ao ponto de acreditar que o dinheiro poderia salvar vidas, almas e até impérios.
A escrita de Biller é contida mas intensa, e a estrutura fragmentada da narrativa espelha a própria fragmentação da memória e da identidade familiar. O romance é uma reflexão profunda sobre o que significa recordar, esquecer e reconstruir a verdade — ou as verdades — de um passado que nunca deixa de pesar.
Maxim Biller nasceu em Praga, em 1960, e vive na Alemanha desde os dez anos. Os seus livros já foram traduzidos para dezasseis línguas e recebeu vários prémios literários. “Seis Malas” foi finalista do Prémio do Livro Alemão em 2018 e bestseller de vendas na Alemanha.











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