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Samuel Úria @ Coliseu de Lisboa (11/10/2025)

Por Pedro Miguel Silva · Em 17/10/2025

Não havia, nas portas ou paredes do Coliseu de Lisboa, um daqueles autocolantes com a inscrição “Sorria, está a ser filmado”, mas era por demais evidente a parafernália de câmaras, cabos e técnicos de som e imagem. O caso não era para menos. O concerto iria ser filmado – e, provavelmente, gravado em áudio – para a posteridade, o que envolve sempre algum espírito de encenação que obriga a seguir, de forma mais ou menos fiel, um guião adaptado para espectáculo televisivo. Um cenário que, ainda assim, não impediu a celebração daquele que continua a ser, passados tantos anos, o melhor escritor de canções cá do burgo: Samuel Úria. Alguém que, pleno de generosidade, quis transformar esta numa festa alheia, como aquele aniversariante que teme o momento em que lhe cantam os parabéns e se vê na obrigação de distribuir fatias de bolo pelos muitos convivas. Bolo não houve, mas a festa foi rija e estendida por duas horas, numa viagem entre o passado e o presente que, a dado momento, deixou ainda pistas para o futuro deste Elvis da Beira Alta (que actua hoje, dia 17 de Outubro, no Coliseu do Porto).

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Foi em modo Lucky Luke, com aquele ar sério de quem viu a montada ser-lhe roubada, que Samuel Úria entrou em cena, recuando ao ano de “1998” num convite para transpormos as portas do saloon, lugar onde já estavam sentados, diante de uma garrafa de whisky e um baralho de cartas, a banda acompanhante, com o seu fato de duas peças, e um senhor coro conhecido como Os 12 ao todo, vestindo o sempre estiloso e discreto negro.

Em “2000 A.D.”, tema-título do último longa-duração, Úria tece largos elogios à RTP e à missão do serviço público de televisão, distribuindo também as primeiras festas pelo público: “Nunca estive tão feliz a ver cabeças”. RTP de quem partiu o convite para escrever “Canção de Águas Mil”, versos onde habita o 25 de Abril e tempos em que a letra “F” era a mais usada de entre as disponíveis no dicionário da língua portuguesa.

“Isto hoje é uma festa”, diz-nos Úria antes de apresentar, um a um qual equipa de futebol, os 12 ao todo, coro que está no centro de “Pedra e Cal”, música gingona que desliza entre as purpurinas de um Festival da Canção e um bailarico onde sardinhas se passeiam em largas fatias de pão.

“Carol, vem dizer olá às pessoas”. Estava apresentada a primeira convidada da noite, que se juntou a Úria em “Daqui Para Trás”, tema arrancado a “2000 A.D.”, “o ano em que comecei a sacar música ilegalmente”, brinca, acrescentando que Carol irá cantar com “a pronúncia da Marinha Grande” – pronúncia que se estende depois a “Essa Voz”, música imaginada a partir das ondas hertzianas lançadas, em tempos felizes, por Inês Maria Menezes.

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“Xico da Ladra” é momento emocional, homenagem a um amigo que partiu e deixou saudades. “Se estivesse cá de certeza que me teria cravado bilhetes”. “Kuchisabishii” mostra finalmente toda a ginga e jogo de anca de Úria, momento partilhado com Margarida Campelo – que fica para um dueto de “Foi Aparecida”, canção de Paulo de Carvalho que este cantou com a mãe de Margarida Campelo. “Peço desculpa ao Agir, era ele que deveria cantar agora”, lança Samuel antes de uma mudança de palco com um desvendado aparato: “As Velhas Glórias vêm aí”. Um momento de preparação algo estendido, complementado pela graça de Úria: “A RTP tem um banco de dados de palmas de sexagenários para preencher este silêncio”.

Samuel Úria e As Velhas Glórias regressam aos tempos em que gravaram “Era de Ouro” e “Grandiloquência do Roque-Enrole”, quem sabe se “antes ou depois do almoço que a Ana Rute Cavaco teve a gentileza de preparar”, como se lê na contracapa do EP “Samuel Úria e As Velhas Glórias”. Um passeio a exigir um pulmão extra, naquilo que se assemelhou a uma aula de fitness para gente com poucas horas de passadeira. “Vamos todos para casa agora”, brinca um ofegante Úria antes da cortina descer.

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O músico tondelense desce do palco e planta-se no meiinho do Coliseu, ladeado por um coro dividido em duas metades que ajuda a dar corpo a uma versão imaculada de “Quem Me Acende a Voz”. “Estou aqui no meio porque estão aqui os meus pais. Já estão velhinhos e só gostam do primeiro álbum”, ouve-se antes da entrada em cena da cúmplice Manuela Azevedo, que o acompanha em “Canção de Água Doce”, “Carga de Ombro” – “Se não conhecem esta devem ter vindo ao engano” – e, já no palco, num eléctrico “Fusão”. A dado momento, Manuela Azevedo tem de colocar água na fervura elogiosa de Úria: “Chega de elogios à Manuela que a festa é tua!”.

Já com novo cenário pede-se “A Contenção”, aperitivo para mais um dos momentos altos da noite. “É raríssimo tocar esta canção. Orgulho-me de dizer que foram as novas gerações a descobri-la”. Uma referência a Milhanas, que o acompanha no belíssimo “Vem Por Mim”. “A Milhanas é um sismo que constrói, que restabelece. Nasceu já as Torres Gémeas tinham caído”, atira Úria falando da sua capacidade de fazer bons amigos na música. Amiga que fica para interpretar “Mundo”, faixa incluída no álbum “De Sombra a Sombra”, que Milhanas lançou em 2023.

“Fica Aquém” é o regresso ao deserto na sela de uma montada ferida, que precede a entrada em cena de um furacão chamado Gisela João. “O Samuel ofereceu-me esta música. Ele é dos últimos poetas que nós temos”, elogio que Samuel encaixa devolvendo: “o último poeta”. A canção, apresentada em estreia, é “Um Dia Depois”, mais um tema com a assinatura de Úria que entra directamente para o cancioneiro português. Gisela João permanece para esse hit de nome “Lenço Enxuto”, recebido com forte aclamação popular. “É um sacrilégio virem mais temas depois isto”, chuta Úria antes de fechar o tempo regulamentar com “Teimoso”.

O encore começa com uma aula de história, momento em que Tiago Guillul sobre ao palco para uma interpretação do clássico de sacristia “Beijas Como Uma Freira”. Afinal, como Samuel Úria nos revelou numa entrevista de 2017, “o lo-fi florcaveiriano não é só um património do passado, é um património. Ponto”. Um monumento a que se seguem “É Preciso que Eu Diminua”, já com a turba de pé a ensaiar movimentos circulares de anca, e “Um Adeus Português”, provavelmente uma das mais belas canções escritas por este predestinado. Havemos de nos lembrar disto quando avançarmos até ao ano 2000 A.D.

Fotos: Gonçalo Nogueira

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Pedro Miguel Silva

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