Costuma dizer-se, seja pelos gurus da auto-ajuda ou pelos xamãs urbanos, que o importante não é o destino, mas sim a viagem. Um pensamento que encaixa na perfeição em “Reino de Cinzas” (Marcador, 2024), o volume que encerra uma das melhores séries de livros de fantasia dos últimos anos, assinada por Sarah J. Maas. Um volume que acaba por ser um dos menos excitantes de Trono de Vidro, talvez pela necessidade de embrulhar algumas pontas soltas sem grande espaço para o deslumbramento e a surpresa, como aconteceu nos anteriores volumes.
“Era uma vez, numa terra há muito queimada até só restarem cinzas, uma jovem princesa que amava o seu reino…”. Começa mais ou menos assim este sétimo volume de Trono de Vidro, onde Aedon e Lysandra, a metamorfa, continuam a esticar a mentira até ao limite, fazendo crer às tropas que Aelin Galathynius os continua a guiar, apesar de não parecer querer usar o seu poder de fogo contra os cada vez mais numerosos inimigos.
Aelin continua aprisionada por Maeve numa caixa de ferro, sujeita a torturas diárias, tendo como único consolo uma troca de olhares com Fenrys, um código secreto que a ajuda a sobreviver a uma realidade difícil de distinguir dos pesadelos.
Manon, Asterin e Dorian partiram em busca do que resta das bruxas Crochan, procurado a resposta filosofal à questão que pode mudar o relacionamento entre bruxas que se odeiam: “Quem é que as Treze, as Dentesdeferro e as Crochan desejariam ser, construir, como um povo?”. Dorian, entretanto, vai treinando os seus recentes poderes, sonhando com uma viagem a Morath para roubar a terceira chave – ou Wyrdkey -, que permitirá fechar os portões e enviar de volta os deuses.
Rowan, Lorcan e Elide partem em busca de Aelin, torturando comandante atrás de comandante para reduzir as variáveis geográficas e, com isso, mudar as regras de um jogo que por esta altura parece perdido.

Com Aelin a tornar-se uma miragem para os soldados, são muitas as interrogações desta decisiva partida de xadrez com ar de construção de dominó: “Não havia garantia de que Rowan e os outros encontrassem Aelin. De que Dorian e Manon pudessem recuperar a terceira Wyrdkey, depois, entregá-la à rainha, caso ela se libertasse, caso os encontrasse naquele mundo caótico. Nenhuma garantia de quantas Crochan reuniria Manon, se reunisse alguma. (…) Com a armada demasiado dispersa pela costa de Terrasen para ter alguma utilidade, apenas as forças restantes de Ansel poderiam oferecer algum alívio. Se não passassem todos de ossos limpos até lá. Havia pouca escolha a não ser resistir até que chegasse. Os seus últimos aliados”.
Sarah J. Maas acrescenta a este campo de batalha alguns extras, como os Little Folk, capazes de descobrir caminhos secretos; as Criaturas dos Túmulos, malévolas e astutas, que “cobiçam ouro e tesouros e infestam os antigos túmulos de reis e rainhas para viverem entre essa riqueza”; ou as aranhas estígias – que parecem ter direito a vistos gold -, habilidosas, poderosas e com teias de grande alcance.
“Com um grande poder vem uma grande responsabilidade”, já dizia o tio de Peter Parker, e a verdade é que a responsabilidade que recaiu sobre os ombros de Aelin lhe retirou muito do sentido de humor e da ironia dos primeiros volumes. A idade adulta é tramada para todos, até mesmo para a assassina das assassinas.











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