Foi um livros mais inesperados de 2025: treze histórias de arquitectura trágica, que misturam factos históricos, invenção literária e apontamentos biográficos com muito de intimidade. Saído da pena de Charlotte Van Den Broeck, “Projetos Arriscados” (Elsinore, 2025) propõe uma viagem pela história quase desconhecida de treze obras de arquitectura que, entre si, partilham quase sempre o mesmo destino trágico reservado aos seus criadores. Enquanto isso, Van Den Broeck fala-nos de alguns dos seus segredos e (sobretudo) tormentos, partilhando com o leitor as agruras e o fascínio da criação literária.
Há de tudo um pouco neste livro incatalogável, começando desde logo com um mergulho numas Piscinas Municipais, uma história de sucessivos fiascos que lança desde logo várias questões sobre o fracasso, como “onde fica a linha que separa o criador da sua obra” e se – e quando – vale a pena morrer por causa de um fracasso. É também aqui que a autora descreve o seu objectivo literário, que se vai transformando ao longo do livro: “reabilitar estes arquitectos caídos, encontrar as suas faces perdidas, contrariar a inutilidade do seu desespero, o carácter absoluto do seu desespero”.

Descobrimos uma igreja com uma torre de 28 metros, muito parecida com um chapéu que um smurf usaria, situada num “lugarejo bisbilhoteiro”; um Edifício dos Correios, hoje considerado um marco arquitectónico, que levará a um suicídio por amor (ou desonra); a Ópera Estatal de Viena, que dá início a um olhar sobre a divisão da Europa entre esquerda e direita, com a palavra “fronteira” no centro do debate; a San Carlo alle Quattro Fontane, que está no centro da mais famosa inimizade da história da arquitectura ocidental; a Biblioteca Nacional de Malta, o último edifício erguido pela Ordem de Malta antes de a ilha ser tomada pelos britânicos em 1800, “concretização perfeita do anseio renascentista pela harmonia”; a napolitana Villa Ebe, erguida por “um astronauta na Idade Média” que todos consideravam um utopista; o Quartel Rossauer, edifício “enfadonho, vagamente romântico”, que levará a um suicídio por causa de sanitas (ou da falta destas); o Fort George, “um exemplo engenhoso de arquitectura defensiva”, que conduz a mais um fantástico retrato pessoal do acto da criação; o Museu e Galeria de Arte de Kelvingrove, baptizado na altura da construção como Palácio dos Sonhos, onde se aborda o sistema patriarcal em que está assente a arquitectura; o muito selecto Pine Valley Golf Course, trancado e não aberto a mulheres, onde um município e um campo de golfe são a mesma e única coisa; o Crandall`s Knickerbocker Theatre, local de uma tragédia nevada precedida de gargalhadas; e, a fechar, o Jardim de Esculturas Cinéticas de Kempf, lugar de visitação em que a pistola do suicídio esteve nas mãos da autora.
Seja ou não fã de arquitectura, estes “Projectos Arriscados” são de leitura obrigatória, um livro onde o desejo de uma viagem pela tragédia na arquitectura culminou num manual de inquietações sobre os mecanismos arriscados e loucos da criação artística. Uma pérola de livro.











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