Algumas línguas distinguem o tempo cronológico do meteorológico, além de usarem palavras diferentes para os relógios grandes e os de bolso ou de pulso. O português não é uma delas e, segundo defende Fernando Correia de Oliveira em “Portugal e o Tempo” (Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2025), esta “pobreza linguística” reflecte “a deficiente relação que Portugal tem mantido com o tempo”.
Este livro, integrado na colecção Ensaios da Fundação, pode ser lido como uma história da medição do tempo no nosso país, mas vai além da enumeração das inovações tecnológicas, enveredando pelas ramificações económicas, sociais e culturais. É assim que, após uma breve referência aos alinhamentos megalíticos, se analisa a introdução dos relógios de sol públicos durante a romanização. Uma curiosidade que exemplifica o seu papel na regulação do quotidiano de então, é o facto de até uma pequena vila operária como a actual Aljustrel anunciar horários distintos para homens e mulheres frequentarem as termas.
Após o hiato que foi a desorganização subsequente à queda do Império Romano, o relato prossegue com o regresso do relógio de sol graças à Reconquista, através das comunidades monásticas, seguindo-se a sua substituição pelo relógio mecânico, acerca do qual Ernst Jünger escreveu que “foi uma das grandes invenções, mais revolucionária que a da pólvora para canhão, a imprensa e a máquina a vapor, mais carregada de consequências do que a descoberta da América”.

Pelo papel desempenhado na regulação do trabalho, dos serviços, da avaliação de conhecimentos e das operações militares, este instrumento começa a aparecer na pintura e na literatura – surgindo na linguagem termos como minutos e segundos, à medida que a precisão na medição do tempo aumenta. Sendo os seus mecanismos comparados à Igreja, ou à própria ideia de Deus, o relógio impõe-se como um dos objectos mais usados em metáforas religiosas ou filosóficas. E, à medida que se transforma num objecto decorativo, começa a servir de presente, tendo até facilitado relações diplomáticas.
O autor transmite factos interessantes com recurso a citações de livros, cartas, documentos legislativos e catálogos de exposições – tendo a preocupação de indicar onde certas peças podem ser hoje encontradas –, reconstituindo também o historial do ensino da relojoaria, da literatura da especialidade e das instituições que tiveram, ou tentaram ter, uma palavra a dizer na área. Infelizmente, aprendemos que a relojoaria nunca foi uma indústria nacional: num panorama marcado pela escassez de operários especializados, de máquinas e instrumentos actualizados, foi mais um daqueles casos em que o país se habituou a exportar matéria-prima para importar produtos finais. Por isso, não surpreende que o autor termine a lamentar a degradação do património relojoeiro, bem como as mais recentes decisões governamentais acerca do Observatório Astronómico de Lisboa e suas consequências.
Sendo o famoso défice de pontualidade dos portugueses atribuível ao facto de que aqui “o relógio foi sempre encarado mais como objecto de aparato, de ostentação, do que como verdadeiro regulador”, que outras implicações existirão? Qual o impacto na produtividade nacional? Como mudar mentalidades? São questões em aberto, à ponderação do leitor.











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