“Olhos Abertos, Olhos Fechados” (Planeta Tangerina, 2025) é um livro de uma sensibilidade rara, de uma aparente simplicidade que possibilita, ao pequeno leitor, uma experiência de leitura sensorial, feita de silêncios e pausas, mas que é também questionadora e reflexiva.
Ao longo das suas páginas, a narrativa constrói-se num delicado jogo entre ver e imaginar, entre o que está diante de nós e aquilo que só se revela quando fechamos os olhos. “Costumas ver com olhos de ver? (…) E se tivesses outros olhos? Como verias o mundo? (…) Olhar, olhar, olhar. De que serve olhar quando há tanto por fazer? Será que os teus olhos são capazes de fazer mais alguma coisa do que apenas olhar?”.

Este é um livro sobre o olhar, talvez o mais silencioso e poderoso dos gestos humanos. Estaremos habituados a este exercício? Seremos capazes de olhar com olhos de ver? Olhamos rapidamente, demoradamente ou apenas de soslaio? Quando fechamos os olhos, continuamos a ver tudo aquilo que demorámos tempo a olhar?
Olhar não se limita a captar o mundo: constrói-o, interpreta-o, dá-lhe sentido. Entre abrir e fechar os olhos, desenha-se uma fronteira subtil entre o visível e o invisível, entre aquilo que nos é dado e aquilo que somos capazes de imaginar. Ver não é apenas um acto biológico, mas um exercício de atenção, de escolha e, em última instância, de consciência. É pelo olhar que nos relacionamos com o mundo, com o outro e connosco próprios, que reconhecemos presença, ausência, detalhe e mistério. Num tempo saturado de imagens, reaprender a olhar, com demora e profundidade, torna-se um gesto quase ético, uma forma de resistir à superficialidade e de recuperar a espessura do real.

O texto de Isabel Minhós Martins é depurado, quase minimalista, mas carregado de intencionalidade. Cada frase, curta e incisiva, abre espaço ao silêncio e à interpretação do(s) leitor(es). A autora propõe uma reflexão subtil sobre a percepção, a atenção e a imaginação, temas raramente explorados com tanta elegância na literatura para os leitores mais pequenos.
As belíssimas e originais ilustrações de Yara Kono dialogam com o texto, ampliando-o e, por vezes, desafiando-o. Com uma linguagem visual marcada por formas simples, cores contidas e composições cuidadosamente equilibradas, a ilustradora cria um ritmo próprio que orienta o olhar do leitor.
O diálogo entre texto e ilustração cria uma experiência de leitura que é, simultaneamente, estética e introspetciva, um convite a um olhar demorado e atento, contemplativo, imaginativo e que parta à redescoberta do acto de ver. “Olhos Abertos, Olhos Fechados” propõe uma pausa, mas também uma leitura a par e dialogada. Um livro excepcional, para ler e dar a ler.











Sem Comentários