Perante uma doença terminal, Michela Murgia (1972-2023), activista e escritora italiana multi-premiada, despediu-se deste mundo com “O Sentido da Náusea” (Elsinore, 2025), uma colectânea de doze contos habitados por personagens que reagem de formas muito próprias às mais variadas crises existenciais.
O primeiro conto é um dos mais fortes, já que é inevitável imaginarmos paralelismos entre a experiência da autora e a da narradora, uma romancista que recebe do médico um diagnóstico de neoplasia e que, ao longo do diálogo entre ambos, decide recorrer a um termo estrangeiro para designar a doença, numa tentativa de colocar distância entre si e a ameaça que ela representa.
A emotividade que esta situação desperta perde-se no segundo conto, que dá título ao livro, no qual nos deparamos com a estranheza de alguém que reage ao fim de uma relação amorosa com vómitos incontroláveis, até descobrir que gosta de vomitar. O outro lado desta história peculiar encontra-se no conto seguinte, no qual o homem que pôs fim à relação traça, com a ajuda de um amigo, um “plano de guerra contra as suas memórias”, visando reconquistar os locais assombrados pela presença da “ex”, que passara a evitar.

A partir do momento em que percebemos que há histórias interligadas, começamos a procurar pontos de contacto, e essa atitude, a par de uma nova sequência de textos mais estimulantes do que o segundo e o terceiro, renova o prazer da leitura. Adicionalmente, a maioria dos textos tem em comum a recriação de um ambiente que associamos à pandemia de covid-19, desde as máscaras faciais e as barreiras de acrílico que encontramos logo no início, à existência de um coronel que trabalha na campanha de vacinação italiana, num conto narrado pela sua governanta. O próprio médico que já referimos surge como protagonista de um enredo dominado pelas suas precauções para não contaminar a família, e perturbado pelo choque do contágio aparentemente inexplicável do filho.
Embora ambos os sexos surjam como protagonistas, são as mulheres que predominam, em papéis nem sempre previsíveis. Há, por exemplo, uma que odeia crianças, mas aceita alojar no útero o filho do melhor amigo, porque a dor dele lhe é insuportável, enquanto outra compra uma figura de cartão, em tamanho real, de um membro de uma banda pop coreana, entabulando com ela fantasias pueris que esconde do marido e do filho. Mas mesmo as que desempenham papéis mais convencionais podem surpreender, como é o caso da jovem esposa de um realizador, menosprezada por ele e pelos seus camaradas, ou de uma mulher mais velha ansiosa por se confessar, após ter passado a vida a fazer escolhas para o bem do falecido marido, acreditando que “o casal é um castelo de cartas” onde não pode deixar espaço para a improvisação.
A mudança nas vozes narradoras é constante, mas há elementos que persistem: o registo intimista, onde o humor assoma, mesmo quando o quotidiano é sombrio, ajudando a resistir às adversidades.











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