“O Ouro dos Corcundas” (Casa das Letras, 2025 – edição revista), de Paulo Moreiras, oferece uma narrativa de fôlego e irreverência, ambientada na Lisboa oitocentista em plena guerra civil entre miguelistas e liberais. Com estilo singular e imaginação exuberante, o autor constrói um retrato mordaz de uma cidade à beira da transformação, onde o grotesco e o sublime se entrelaçam numa dança literária de crítica social e humor negro.
Encontramos uma sociedade em tempos de ruptura. A trama desenrola-se em 1833, quando as tropas liberais de D. Pedro avançam sobre Lisboa, marcando o fim do reinado absolutista de D. Miguel. Neste cenário de viragem política e social, Vicente Maria Sarmento regressa à sua terra natal após cumprir pena na cadeia do Limoeiro. A sua libertação coincide com a chegada dos liberais à capital, simbolizando não apenas uma mudança de regime, mas também a possibilidade de redenção pessoal. Paulo Moreiras articula com mestria o plano histórico e o ficcional, revelando os bastidores de uma sociedade marcada pela corrupção, exclusão e manutenção de privilégios. A cena em que fidalgos conspiram contra Vicente Maria, apenas por ser um ex-recluso, é um retrato pungente da hipocrisia aristocrática.
As personagens surgem como alegorias sociais, construídas com expressividade, funcionando como parábolas de uma Lisboa em decadência. Emílio Serpa, chefe de quadrilha com gostos filosóficos, e Pasquinho, taberneiro sem língua, mas com “colhões”, transcendem o papel narrativo e tornam-se símbolos vivos da marginalidade e da resistência. Vicente Maria, protagonista ambíguo, é simultaneamente vítima e agente da transformação. A sua relação com uma prostituta representa o eixo emocional da narrativa, mas também serve como metáfora da luta entre o desejo de redenção e o peso do passado.

A escrita de Moreiras é rica e eficaz na construção de uma atmosfera densa e cinematográfica. A linguagem alterna entre o registo erudito e o popular, criando uma tensão estilística que reflete a própria fragmentação da sociedade retratada, existindo um engenhoso recurso a expressões que convocam o leitor para o ambiente à época.
“O Ouro dos Corcundas” não é uma leitura linear: é uma experiência literária intensa, onde o grotesco serve de espelho à realidade e onde o humor negro convive com a denúncia social. Paulo Moreiras confirma-se como um dos autores mais originais da literatura portuguesa contemporânea, capaz de transformar a História em fábula e a fábula em crítica mordaz. Começou na banda desenhada, navegou pela poesia e desaguou no romance com “A Demanda de D. Fuas Bragatela” (2002), seguindo-se “Os Dias de Saturno” (2009). “O Caminho do Burro” (2021) reuniu os seus melhores contos. Também escreve sobre gastronomia, com destaque para “Elogio da Ginja” (2006) e “Pão & Vinho” (2014) – mil e uma histórias de comer e beber. “O Ouro dos Corcundas” já havia sido publicado em 2011, sendo esta uma versão revista e corrigida, continuando a ser um muito actual retrato cáustico da sociedade portuguesa e da sua vulnerabilidade perante o poder, a corrupção e a exclusão social.











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