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“O Mundo de Sofia: Novela Gráfica 2” | Nicoby e Vincent Zabus (a partir da obra de Jostein Gaarder)

Por Pedro Miguel Silva · Em 25/10/2024

É um pouco como aconteceu com o universo da banda desenhada, que viu os super-heróis saltarem do confinamento dos quadradinhos para uma tela de dimensões épicas, isto após a implantação do reinado dos efeitos especiais e à boleia de orçamentos chorudos. Aqui, o movimento manteve-se na dimensão do papel, dando-se o salto da palavra “pura” para a sua adaptação a novela gráfica. É certo que, em alguns casos, muito se perde pelo caminho – ideal será sempre ler o original -, mas noutros a compressão acaba por ter resultados dignos de nota artística – como é o caso da adaptação a novela gráfica de “O Mundo de Sofia”, um dos mais sérios casos de sucesso literário dos anos 90. Traduzido para mais de 60 línguas, o romance teve sua primeira edição em Portugal em 1995, estando actualmente na sua 36.ª edição com o selo da Editorial Presença.

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“O Mundo de Sofia: Novela Gráfica 2” (Elsinore, 2023) encerra em grande esta adaptação, numa viagem filosofal que principia com Descartes e termina em Hilde, deixando-nos um mantra que poderia ter sido inventado por Stephen Hawking ou Carl Sagan, colocados perante a pequenez e a dimensão humanas: “A única coisa que podemos dizer é que somos uma centelha desse grande fogo que abrasou o universo há vários milhares de milhões de anos”.

Em mais uma edição que chega num grande formato embrulhado em capa dura, continuamos a seguir Sofia que, após ter descoberto as origens da Filosofia – pela mão pelo professor Alberto -, prossegue a sua exploração conhecendo as principais correntes do pensamento ocidental. Sempre numa relação directa com o leitor, após perceber que se trata de uma personagem de banda desenhada, lendo um caderno que estava “na cabana ao pé do lago, num pequeno móvel fechado à chave”. A interrogação que assombra Sofia, é a mesma que empolgará o leitor nesta viagem filosofal com laivos de thriller: “Continuamos sem saber quem é essa famosa Hilde…”.

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Neste volume final, seguimos Descartes, “o primeiro a construir um verdadeiro sistema filosófica”, que decidiu fazer tábua rasa ao passado e partir do mais simples para alcançar o mais complexo, distinguindo radicalmente entre corpo e alma – o “Penso, logo existo” é dele; Espinosa, que acredita haver uma única substância na origem de tudo, olhando para a procura da felicidade como o desígino humano – numa ideia de livre-arbítrio mais dada à reflexão do que ao instinto; empiristas como Locke, Hume ou Berkeley, que defendem que o conhecimento provém dos sentidos – mas que, entre si, divergem em assuntos tão sérios como a religião; a ideia de contrato social, que colocou em lados opostos do ringue Hobbes – defensor do lema um rei, um presidente, um governo –, Locke – prefere um estado de harmonia onde a autoridade tem de se dar ao respeito para ser respeitada – e Rosseau – um optimista que coloca o contrato social no povo e na sua própria soberania, devolvendo a confiança ao ser humano; Kant e a sua bola de espelhos – ou luzes, para sermos precisos -, um filósofo ao nível daquele Real Madrid que limpou cinco Taças dos Campeões de uma assentada, e que nos ofereceu coisas tão belas como este pensamento sobre a liberdade – “a liberdade não se negoceia, é um princípio, uma dignidade que deve ser aplicada, sejam quais forem as circunstâncias e os seus efeitos. Mesmo se esses efeitos puderem ser temporariamente desagradáveis”; o Romantismo, “o último movimento que define um modo de vida”, onde reina “o sentimento, o imaginário, a experiência e a nostalgia” – e onde conheceremos personagens tão ilustres quanto Schelling, Hegel ou Kierkegaard; Marx e a sua filosofia de guerrilha, na defesa de que as condições materiais são a base de todo o desenvolvimento histórico; Darwin e a selecção natural, que fez um xeque-quase-mate à religião; Freud, o tipo que virou a filosofia do avesso com a invenção de uma psicologia das profundezas; o existencialismo de Sartre e Beauvoir, a que Nietzsche respondeu com o conceito de super-homem – que representa a vontade de superação do próprio ser -, até chegar Camus para nos atirar com um “para quê viver se vamos morrer no fim?” – bem-vindos ao século XX. E, a fechar, o capítulo sobre Hilde, que entra num domínio que a ficção científica acolheria de braços abertos.

Uma excelente adaptação do clássico de Jostein Gaarder, que consegue espremer bem a complexidade dos temas num grafismo escolhido a dedo. Se andam à procura de uma prenda para jovens adolescentes às voltas com a existência, este díptico tem tudo para ser um brilharete.

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Pedro Miguel Silva

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