Será, das três novelas gráficas publicadas em Portugal, a menos celebratória de Keum Suk Gendry-Kim, faltando-lhe um sentido crítico mais arguto ou um carácter expositivo de um sistema político e repressor – e de quem dirige os seus destinos.
A escolha de “O Meu Amigo Kim Jong-Un” (Iguana, 2025) como título até poderia carregar em si uma fina ironia, mas estamos perante um livro com uma certa neutralidade Suiça que, com a linguagem poética que caracteriza a narrativa da autora, nos oferece uma história desenhada das duas Coreias e da sua divisão, enquanto pinta um retrato de um ditador que vai da sua infância à sua ascensão ao poder, não esquecendo a educação, os gostos ou os passatempos – ou mesmo a árvore genealógica.

Há, também, um retrato biográfico da própria autora, com o foco a recair num sistema de ensino repressor adepto dos castigos corporais e da obrigação da escrita de cartas de encorajamento aos soldados e a sua ligação à Coreia do Norte sentida quando estudava no estrangeiro, e é neste lado mais pessoal que descobrimos uma crítica ao regime, ainda que o livro esteja a milhas de ser lido como um manifesto.
Ao contrário de “Erva” (ler crítica) e “A Espera”, nos quais se limitava ao uso do preto, há aqui a utilização de um tríptico colorido, que vê juntarem-se ao preto o roxo e o azul claro. Os desenhos ganham também um prisma bem diferente das novelas anteriores, bem menos dados à poesia, como se tivéssemos passado de um romance para um manual de História.

No meio de alertas variados, onde se aventuram cenários em vários conflitos mundiais, Keum Suk Gendry-Kim fala do tempo presente como o tempo decisivo para o futuro e, enquanto realça a impossibilidade de reverter a História, deixa também um olhar algo desalentado e que quase encerra o livro em jeito de enigma para o leitor: “Uma vida construída com base no amor é sempre efémera”. Uma novela gráfica com sabor a ensaio – e a alguma neutralidade.











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