Autora de “Altamente” e de “O Outro Lado de Z” (a meias com Nuno Duarte, autor do argumento), Joana Mosi assina em “O Mangusto” (A Seita/ Comic Heart, 2024) um álbum sobre a perda, a reparação e a urgência do quase esquecimento como forma de sobrevivência.

A protagonista é Júlia, que partilha casa com o irmão com quem não fala há semanas, um desenhador de jogos – ou game designer – actualmente desempregado e pouco dado a ajudar no que quer que seja. A relação com a mãe é também complicada, e recentemente perdeu o marido, um acontecimento que esmiúça nas consultas com a psicóloga, com quem se vai abrindo timidamente.
Júlia tenta dedicar-se a construir uma horta, mas o cenário é pouco animador, com o aparecimento de buracos e caules partidos. Apesar de todos parecerem ter uma teoria para a catástrofe, Júlia acredita tratar-se de um mangusto, um mamífero carnívoro muito parecido com a doninha. Indecisa entre usar uma armadilha ou espalhar veneno no terreno de cultiva, Júlia partilha o seu dilema ético com o leitor, desejando uma solução aparentemente inalcançável: “uma coisa que o prenda, mas não o magoe. Como um espantalho”.

O trabalho gráfico deste álbum merece rasgados elogios. As vinhetas são incríveis, como quando assistimos à protagonista a deitar-se na cama, que se transforma naquilo que parece ser um lenço amarrotado. A arrumação das páginas deixa muitos espaços em branco, uma forma de respirar da própria narrativa que, quando mergulha num regresso ao passado, faz com que as ilustrações ganhem uma intensidade extra, quase criando um efeito de um álbum de fotografias em 3D. Existencialista e dado a filosofar, “O Mangusto” mostra-nos uma Joana Mosi em grande forma – tão em forma que, a seguir, escreveu “A Educação Física”, também com edição pela Iguana.











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