É um daqueles livros que, ao longo do tempo, foi sendo posto em causa. Será assim tão bom? Fará sentido estudá-lo nas aulas de Literatura como um dos seus maiores triunfos? Um questionamento que começou, desde logo, no tempo da sua publicação, arrasado pelos críticos e culminando num fracasso comercial. A verdade é que, cem anos depois – foi publicado pela primeira vez a 10 de Abril de 1925 – “O Grande Gatsby” (A Seita/Comic Heart, 2023) alcançou a intemporalidade, um livro feito de amor, ganância e que transforma o sonho americano num enorme pesadelo.
Com adaptação de Ted Adams e arte Jorge Coelho, o pequeno-grande livro de F. Scott Fitzgerald chegou às livrarias com o selo editorial A Seita/Comic Heart, apresentado como “a novela gráfica definitiva”. Uma adaptação que faz jus ao universo construído por Francis (ou apenas F., como rezam a história e as capas dos livros) Scott Fitzgerald, que viveu sempre com medo de que a mediocridade lhe batesse à porta – a vida fez-lhe a vontade e tal adversidade nunca se lhe atravessou no caminho.

Diz-se que a ficção nunca conseguirá criar algo tão surpreendente quanto aquilo que a realidade é capaz de inventar. No caso de Fitzgerald, a máxima foi cumprida à risca, tendo-se tornado o autor-personagem de quase todos os seus livros. “O Grande Gatsby”, um diamante que apenas revela todo o seu brilho num final apoteótico, é talvez o maior exemplo desse narcisista e amargurado olhar ao espelho.
Jay Gatsby é um tipo misterioso, um excêntrico da “idade do jazz”, rico e pouco dado a grandes moralidades. Dedica-se a oferecer festas de arromba a toda a gente que decide aparecer na sua grande mansão, movido por um secreto e ambicioso desejo: reconquistar o coração de Daisy Buchanan, por quem se havia apaixonado na juventude mas que, entretanto, casara com o milionário Tom Buchanan, isto enquanto Gatsby partia para a guerra. Mas será que o passado pode ser tão facilmente reclamado?
A história é-nos contada por Nick Carraway, vizinho de Gatsby, que acaba por actuar como um cronista da verdade, perdido entre algum orgulho e uma grande dose de desapontamento. Se lermos um pouco sobre a vida de Fitzgerald, talvez digamos que ele é, em “O Grande Gatsby”, retratado em duas personagens: em Nick, através do desejo de justiça e do desapontamento com as convenções sociais; e em Gatsby, um novo-rico que vê no dinheiro o motor que torna tudo possível, um rebelde sem ideologia a caminho da auto-destruição.

Com uma narrativa que se vai transformando devagar ao longo das páginas, “O Grande Gatsby” é uma aparente pedra sem valor que, aos poucos, se revela um gigantesco diamante. Poucos livros falam, como este, da perda das ilusões e da insensatez de alguns sonhos. “Não há fogo nem gelo, por grandes que sejam, que desafiem os fantasmas ocultos no coração do homem”.
Trata-se de uma adaptação gráfica muito bem conseguida da obra de Fitzgerald, tanto na forma como nos apresenta cada uma das suas inesquecíveis personagens como no retrato da vertigem dos loucos anos 1920 – a porta de entrada perfeita a uma nova geração para um dos grandes clássicos da literatura do século XX. Um século depois, Gastby continua a ser O Grande.











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